Arquivo | dezembro, 2014

Filhos do céu – fragmentos de leitura

29 dez

Recentemente acabei de ler um livro bastante interessante, Filhos do céu: entre o vazio, luz e matéria. Trata-se de um diálogo entre o astrofísico Michel Cassé e o pensador Edgar Morin que perpassa a astrofísica e a cosmologia – ramo da ciência que estuda a origem, estruturação e o futuro do universo. A astrofísica e cosmologia são como que uma arqueologia e história do cosmos.

Nessa conversa os autores conseguem com uma linguagem acessível e poética levar o leitor para grandes questões que as descobertas científicas trazem para o destino da epopeia humana na Terra e a necessidade de religar os saberes da cultura científica e das humanidades para um reencantamento da ciência.

Aos que se interessarem ficam aqui alguns fragmentos dessa leitura:

No mito grego, Caos encontra-se na origem do cosmo; Caos não é a desordem, mas a união indiferenciada e genéstica das forças da ordem, desordem e organização. (2008: 10)

Originalmente, nosso cérebro desenvolveu-se para responder aos nossos problemas práticos e não para compreender o universo do qual se originou, mas desenvolveu-se, também, para questionar-se e tentar compreendê-lo. (2008: 14-15)

Fala-se de expansão do universo, mas, na realidade, trata-se de uma dilatação em grande escala do espaço. (2008: 23)

[…] a luz não é a primeira coisa que ocorreu. Ela teria sido precedida por uma forma à qual poderíamos dar o nome de vazio, mas um vazio paradoxal, pleno de todos os nascimentos e de todas as energias, um vazio que somente a mecânica quantia é capaz de descrever e que poderia ser comparado a uma agência de comunicação e relações públicas. (2008: 30)

[…] a desordem é uma ordem oculta. (2008: 49)

[…] a descoberta dos limites da Razão pura não esgota o desejo de metafísica, mas confronta-o a necessidade de limites. (2008: 58-59)

[…] o que diferencia a vida da não vida é a organização. (2008: 61)

 

Mailson Cabral

 

CASSÉ, Michel; MORIN, Edgar. Filhos do céu; entre o céu, o vazio e a matéria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

Vídeo

Ilya Prigogine – Ciência, religião e uma nova utopia

29 dez

Penúltimas palavras

18 dez

Nesses meus breves vinte e três anos de existência, eu acumulei mais livros lidos do que amigos e amores. Se isto é bom ou ruim só o tempo dirá. Penso que por isso não sei dizer se sou o que sou pelas leituras que fiz ou se fiz as leituras que fiz por ser o que sou. Daí surge um estranhamento a mim mesmo e da realidade em que estou situado, possuo uma miríade de questões mal resolvidas e umas poucas bem claras na minha vida. Adquiri mais sensibilidade para me fazer perguntas que me rasguem ao meio do que para concordar com as respostas prontas dos catecismos.

É precisamente por isso que me considero mais um homem de pensamento do que de ação. Se isso é bom ou ruim só o tempo dirá. Porém foi o incômodo com tantas rezas, orações e sermões irrefletidos servindo como alimento para fome diária e as chagas na alma que me impulsionaram a ser reflexivo, e livros lidos, textos escritos, discussões com amigos, inimigos e desconhecidos a ser crítico.

Aprendo a me equilibrar na tênue linha entre o mistério e a razão. Entre a ideia e o real, a loucura e a sapiência. Um desafio sem promessas de sucesso, com a única certeza da própria ignorância a cerca do mistério da vida.

Restam-me com meus íntimos ouvidores o silêncio branco e umedecido da tinta negra da caneta no caderno em que escrevo e a persistência épica da luta entre o dizer e o não-dizer que as palavras comportam. Todavia é o caminho que tenho para que, me fazendo outro, a mim mesmo escutar. E assim escrevo-me, desenho-me, danço sobre as ideias que se queimam a cada linha. Enfim, faço-me existir como escritor.

Mailson Cabral

Como não lidar com as Ciências da Religião

14 dez

Quando se passa muito tempo mergulhado no estudo da religião, principalmente quando se trata de uma perspectiva fenomenológica e dialógica, corre-se o risco de acreditar no objeto de estudo em questão como uma realidade ontológica, confundir o que se estuda com o que se crê em uma esfera epistemológica que nos leva a produzir uma autoilusão sobre os diagnósticos e prognósticos feitos sobre a religião.

O conteúdo espiritual das religiões é a crença em um mito. É necessário deixar isso bem claro. A criação dos mitos se dá por meio de um processo de automediação no qual o homem projeta sua intersubjetividade como força criadora de si e do mundo, construindo a partir daí seus sistemas de organização religiosos e políticos, isto sem falar nas estritas relações entre os mitos e as nossas manifestações artísticas.

Na construção social da realidade, a religião ocupa um papel substancialmente importante, uma vez que ela se manifesta não só como gerador de sentido para realidade humana como também é um dos seus mais eficazes legitimadores da ordem social. A questão é que nesse processo a religião oculta a sua face de criação humana para ascender como criador do homem e do mundo. Dito de outra maneira: o fenômeno religioso está circunscrito dentro do fenômeno humano tanto em seus processos culturais como cognitivos, porém a religião inverte essa ordem unilateralmente, e é a isso que podemos chamar sem sobras de dúvidas de alienação.[1]

Acontece que é relativamente fácil delinear um objeto de estudo nas linhas de um caderno ou fazê-lo emergir sob as teclas do meu laptop, todavia isso não capta a nervura das manifestações religiosas tão como se dão, tendo em vista que um estudo é um recorte que, quando bem feito, nos ajuda a compreender muito sobre a realidade estudada, porém não o devemos confundir com a totalidade dessa realidade. Digo isso porque se alguém pretende pesquisar a sério o campo das religiões deve estar ciente do duplo desafio que encara: a relação antagônica complementar entre o todo e as partes no âmbito da pesquisa, e ao mesmo tempo não cair na autoilusão de tomar os conteúdos de fé como realidades ontológicas para si. O que se pode, e deve se fazer é analisar o caráter dialético da questão como bem expôs Edgar Morin: “Nós modelamos deuses que nos modelam. Por outro lado, não se pode reduzir essa possessão pelas ideias religiosas apenas ao aspecto bárbaro. Os deuses que dominam os fiéis podem obter os atos mais terríveis como também os mais sublimes.” (2009: 13)[2]

É importante estudar os conteúdos de fé das religiões; a questão capital é sob que paradigmas eles serão tratados, nenhum flerte com uma confessionalidade teológica ou neopositivismo tem algo de contributivo a nos oferecer, ou isso fica bem demarcado ou não se avança no estudo da religião.

Na época da intersecção dos diferentes campos do saber é preciso saber que tipo de ciência se quer fazer e que rumo se quer tomar. Para onde caminham os estudos sobre a religião depende fundamentalmente disso.

Mailson Cabral

[1] Ver BERGER, Peter. O Dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985. Especialmente os caps. I, II, III e IV.

[2] MORIN, Edgar. Cultura e barbáries europeias. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2009.

Insights para uma teoria da religião

8 dez

Elaborar uma teoria sobre o que é a religião é uma coisa um tanto difícil e complexa. Isso porque a religião, por ser um fenômeno humano, possui diferentes interfaces no modo como ela é constituída, o que torna necessário levar em consideração as diferentes teologias e filosofias que se originam delas como também as considerações que as ciências humanas e sociais, naturais e cognitivas têm a nos dizer para que possamos apreender o fenômeno em toda a sua conjetura, isto é, se estivermos falando mesmo de uma teoria geral da religião.

Uma metateoria como essa precisaria ser em sua essência dialógica, complexa e transdisciplinar tendo em vista que tais conceitos podem subsidiar de maneira democrática as disciplinas advindas dos diferentes campos do saber. O que sugere, consequentemente, a necessidade de um estudo da religião que seja feita numa perspectiva plural e intercultural de como será a conversação dos campos disciplinares ou subdisciplinares que compõe essa metadisciplina a que chamamos de Ciência(s) da Religião.

Com isso não se apaga o valor e singularidade de cada disciplina envolvida, muito pelo contrário, o que se pretende é trabalhar essas singularidades dentro de uma escala plural para que assim se possa melhor explorar o objeto de estudo em questão sem fazer um corte arbitrário do real. Uma vez que a realidade é complexa (complexus, isto é, o que é tecido em conjunto) é necessário um método que nos dê acesso a essa realidade em sua complexidade.

Sei que essa proposta pode soar um tanto idealista, porém caso se queira fazer da(s) Ciência(s) da Religião um campo de pesquisa metodologicamente coeso e coerente com os avanços que experimentamos dos diferentes campos do saber e, ouso dizer, com o espírito do nosso tempo é necessário perseguir esse caminho.

Mailson Cabral