Da minha incontornável teimosia

26 fev

Nós, românticos incontornáveis, tendemos a relatar num texto nossas experiências, vivências – a unicidade de um encontro, de uma transa, de uma arenga, de um estado de tristeza ou estranhamento com o mundo. Tentamos lançar para o papel o que se sente, o que impressiona nossas mentes.

Apesar disso, tenho para mim que há um núcleo rígido que não se abre, que guarda um incomunicável.

Esse espaço não me parece ser acessível ao analista do discurso, ao psicanalista ou mesmo ao neurocientista. Talvez na literatura se encontre a melhor forma de se fazer mostrar essa incapacidade. Lembro-me que Rilke escreve em suas “Cartas a um jovem poeta” sobre como cultivar um sentimento de solidão que gere maturidade e do amor como uma forma de crescimento interior. A meu ver, fala-se nas cartas que compõe esse breve livro sobre uma percepção de essências, ou melhor, da compreensão de coisas que se tornam perceptíveis para nós a partir do modo como enxergamos nossas próprias experiências. Há uma tentativa por parte do autor de fazer comunicar essas impressões e de mostrar as possibilidades de buscá-las sob uma forma de introspecção. Aqui surge uma questão muito difícil: como fazer transmitir algo tão subjetivo e individual para um outro? Porém não é o que com frequência quando queremos externar nossas impressões?

Tentamos fazer as palavras traduzirem o que sentimos e entendemos, mas nem ao menos as palavras são neutras: elas já estão carregadas de sentidos que nos precedem e nos transpassam. Amor, tempo, vida, existência… o que pretendemos dizer com essas coisas? Talvez aquilo para que melhor sirvam seja comunicar o que nos é essencial, mas que sempre nos escapa.

E eu, na demência que me é própria, e que só se agrava com o passar dos anos, quero sempre comunicar aquilo que me escapa. Minha teimosia é incontornável.

Mailson Cabral

Como pode alguém perder a Deus se jamais chegou a possuí-lo?

31 jul

Belíssimo fragmento de uma das cartas do poeta Rainer Maria Rilke. Caso não soubesse que tivesse sido escrito por Rilke, teria roubado para mim. A maneira como ele fala ao jovem Kappus sobre o que entende por Deus é realmente bela. Poderia Deus ser pensado como um devir, enraizado no tempo e na vida?

Se é algo angustiante e perturbador pensar em sua infância, na simplicidade e na quietude que a envolvem, porque o senhor não pode mais acreditar em Deus como o via antes, pergunte a si mesmo, caro senhor Kappus, se perdeu realmente Deus. O que ocorre não é que não chegou jamais a possuí-lo? Pois quando isso teria acontecido? O senhor acredita que uma criança pode sustentá-lo, se os homens só o suportam com esforço, se seu peso esmaga os anciãos? Acredita que alguém, caso realmente o possua, pode perdê-lo como se perde uma pedrinha qualquer, ou não percebe também que quem o tivesse só poderia ser perdido por ele? – Contudo, se o senhor reconhece que ele não se encontrava em sua infância, nem antes, se intui que Cristo foi iludido por sua nostalgia e Maomé foi enganado por seu orgulho – e se o senhor sente com temor que Deus também não existe agora, neste momento em que falamos dele -, então de que lhe vale sentir falta dele, que nunca existiu, como de algo passado, e procurá-lo como se o tivesse perdido?

Por que não pensar que ele é aquele que está por vir, aquele que se encontra diante da eternidade, o futuro, o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos nós? O que o impede de projetar seu nascimento nos tempos por vir, de modo a viver sua vida como um dia doloroso e belo na história de uma grande gravidez? O senhor não percebe como tudo o que acontece é sempre de novo um começo? E não poderia ser o começo dele, já que todo início é sempre tão belo? Se ele é o mais perfeito, o que há de pequeno não tem que estar antes dele, de maneira que ele possa se escolher a partir da plenitude e da superabundância? Ele não tem de ser o último, a fim de abarcar tudo? E qual sentido teríamos nós se aquele pelo qual ansiamos já tivesse existido?[1]

[1] RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2014. P. 58-59.

Ressaca

27 jun

Mas que coisa terrível! De repente me dei conta hoje do ridículo caráter racional que tenho. Vou levando a vida no automático e depois reclamo que meu próprio tempo não dá pra nada. Sigo repetindo os mesmos vícios e ainda tenho a pretensão de conseguir alguma coisa diferente com isso. A grande parte do que tomo como vida não passa de uma sucessão de atos repetidos sem nenhum significado mais profundo. A questão é que procuro suspender esses juízos e, brilhantemente, chego a reluzir de tanta ignorância. Sigo em frente enquanto vou assim, destruindo-me, reduzindo-me aos cacos da minha própria existência. Sabendo a pessoa introspectiva que sou, deveria ao menos ter prestado mais atenção nisso. Mas essa percepção só emerge em mim agora, tarde demais para algumas coisas. Que merda.

Mas que coisa terrível seria se todos se dessem conta disso, de repente…

Seria uma merda, uma grande merda! Magnífica e suprema merda!

Mailson Cabral

O espelho da verdade

4 maio

“[…] conta uma tradição oral de matriz africana que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (mundo invisível, espiritual) e o Aiyê (mundo natural) existia um grande espelho. Assim, tudo que estava no Orun se materializava e se mostrava no Aiyê. Ou seja, tudo que estava no mundo espiritual se refletia exatamente no mundo material. Ninguém tinha a menor dúvida em considerar todos os acontecimentos como verdades. E todo cuidado era pouco para não se quebrar o espelho da Verdade, que ficava bem perto do Orun e bem perto do Aiyê.

Neste tempo, vivia no Aiyê uma jovem chamava Mahura, que trabalhava muito, ajudando sua mãe. Ela passava dias inteiros a pilar inhame. Um dia, inadvertidamente, perdendo o controle do movimento ritmado que repetia sem parar, a mão do pilão tocou forte no espelho, que se espatifou pelo mundo. Mahura correu desesperada para se desculpar com Olorum (o Deus Supremo).

Qual não foi a surpresa da jovem quando encontrou Olorum calmamente deitado a sombra de um iroko (planta sagrada, guardiã dos terreiros). Olorum ouviu as desculpas de Mahura com toda a atenção, e declarou que, devido à quebra do espelho, a partir daquele dia não existiria mais uma verdade única. E concluiu Olorum: ‘De hoje em diante, quem encontrar um pedaço de espelho em qualquer parte do mundo já pode saber que esta encontrando apenas uma parte da verdade, porque o espelho espelha sempre a imagem do lugar onde ele se encontra’. ”[1]

 

 

[1] BRASIL. Presidência da República. Cartilha de diversidade religiosa e direitos humanos. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Brasília: 2013, p. 23-24.

 

Ciências da Religião – problemas epistemológicos

30 abr

Como fica a questão do conhecimento em religião? O que posso saber, como e em quais condições a respeito dela? Como fica a religião enquanto objeto de estudo?

Iniciei neste último mês de Março meus estudos no mestrado em Ciências da Religião na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Começo agora a estudar mais aprofundadamente esse meio objeto de amor e ódio, fascínio e assombro que é a religião. Depois de um breve voo nesse último mês sobre algumas concepções teóricas do que seja a religião – ou o fenômeno religioso, como alguns autores preferem falar –, as correntes de pensamento que se dedicam a refletir sobre isso e como as cosmologias religiosas organizam suas concepções de mundo a respeito da vida, do homem, da morte etc., confesso que descobri que meu guarda-chuva teórico estava inadequado para apreender o fenômeno religioso em suas diferentes interfaces, estrutura e conjectura. Se de fato pretendo ser mesmo um bom cientista da religião – e não mais um bobo com um diploma de mestrado da mão – é necessário refletir essas questões com empenho e rigor. Não posso me furtar disso. E dentre os problemas mais espinhosos a se refletir nesse campo é a questão epistemológica.

Nesse sentido, penso que precisamos buscar de forma mais substancial subsídios para pensar a questão do problema epistemológico em Ciências da Religião. Carecemos ainda desse tipo de aproximação feita de maneira mais incisiva. Trata-se de saber aqui se as Ciências da Religião possui uma metodologia própria ou não. Senão tiver, como posso considera-la um campo disciplinar? Dizer que se trata de uma disciplina plurimetodológica, longe de resolver a questão, só aumenta o seu grau de problematização: se é plurimetodológica, qual a escala para se medir isso? Que critérios serão tomados como a priori para tal seleção de métodos? Isso para não entrar na briga Ciências da Religião versus Ciência da Religião. É importante lembrar que mais do que uma simples nomenclatura se envolve talvez um problema mais profundo, de como seja concebido o objeto de pesquisa desse campo pelos pesquisadores: se a religião deve ser abordada de maneira essencialista (Otto/ Croatto/Eliade) ou como produto da cultura, isto é, totalmente construída (perspectiva nominalista)? É difícil escolher um posicionamento entre os dois, sobre que lado tomar parte, ou mesmo a tentativa de uma terceira via, por meio de uma epistemologia das controvérsias – tentar compreender essas concepções de religião ao mesmo tempo como antagônicas e complementares.

Em diálogo com alguns professores e colegas do mestrado e doutorado da Unicap pude perceber que a concentração das pesquisas no nosso campo de estudo se concentram muito mais sobre o fenômeno religioso e seus condicionantes sociais, antropológicos, históricos e teológicos do que sobre método e metodologia em nosso campo. Encontramos espalhados pelo país diferentes vertentes epistemológicas, mas para mim ainda resta saber com clareza se o que chamamos de Ciência(s) da Religião é a mesma coisa para todos e em todos os programas. Ou então se não estamos a fazer alguma outra ciência das humanidades sob essa capa ou em alguns casos a fazer uma teologia laica mesmo. Não me deterei na questão do distanciamento e aproximação entre teologia e ciência da religião, mas não custa nada lembrar que Teologia e Ciências da Religião constituem uma área autônoma junto a Capes/Mec e que possuem também uma associação de pesquisa interligada (ANPTECRE).

A meu ver, não há problemas das Ciências da Religião manter relações metodológicas com outras disciplinas, muito pelo contrário, é interessante para nós uma dialógica inter e transdisciplinar na construção de uma cultura epistemológica na área. A questão é se as Ciências da Religião tem ou não seu ponto de autorreferência, senão ela é uma terra de ninguém, um ponto de conveniência para locar outras disciplinas que estudam o fenômeno religioso.

As lutas em torno o estatuto epistemológico das Ciências da Religião no Brasil estão no seu limiar, ainda será campo de muitos embates, mesmo com a consolidação dos programas de pós-graduação na área nos últimos anos. É sabido que a discussão e problematização sobre o tema em terras tupiniquins até o momento é bem insipiente (apesar de contar com obras como o “Compêndio de ciência da religião” Organizado por Frank Usarski e João Décio Passos – Paulinas/ Paulus, 2013 –  e tantos outros livros organizados tanto pelo Faustino Teixeira como pelo Frank Usarski) e que ainda há muito o que ser explorado na área.

Uma discussão em busca dos fundamentos epistemológicos do que chamamos de Ciência(s) da Religião precisa ser bem feita –  de maneira ampla e exaustiva no Brasil. Nesse sentido, espero poder contribuir para o enriquecimento dessa discussão nessa minha jornada de estudos que se iniciou oficialmente no último mês de Março na Unicap. Refletir e produzir conhecimento sob o prisma de uma epistemologia das controvérsias, complexa e transdisciplinar as Ciências da Religião é o que pretendo. O que não será nada fácil, diga-se de passagem. E é justamente isso que torna tudo bem mais instigante.

Mailson Cabral

O teólogo ateu

29 abr

Um antigo texto do amigo Geraldo de Araujo, teólogo ateu, que eu tinha encomendado há um bom tempo (quase um ano!), mas só agora publico. Pedi a ele que escrevesse o que a palavra o a ideia “Deus” ainda lhe representava. Ele me saiu com este belo texto, digo de ser proferido numa aula de introdução a teologia.

“Blasfema são as palavras de quem afirma o que afirmo, mormente em caso de se ter vivido como religioso por pouco mais da metade de sua vida. Contudo, não são palavras propositadamente ofensivas, escarnecedoras. São, simplesmente, a expressão pálida de meus devaneios, de minha liberdade de expressão, de minha não aceitação e resignação, do resquício do jeito protestante de ser. Hoje, percebo o quanto Deus evoluiu durante minha vida. Como ele deixou de ser criança e passou a ser um adolescente implicante. Até que, na fase adulta, julguei tê-lo encontrado de forma salvífica e dele me considerei um servo, um escravo. Porém, toda a estrutura erguida em torno do onipotente Deus foi-se esvaindo gradativamente ao ponto de, no fim, tudo mais que eu tinha era nada menos do que eu mesmo.

Deus, virou pó, junto com a estrutura (!). Se ele existe ou não existe isso independe da minha [des]crença. Nada existe ou deixa de existir simplesmente por que eu creio ou descreio. Mas, em existindo ele, haverá de me perdoar por minhas loucuras, pois, sendo conhecedor de todas as coisas, conhece, certamente, meu coração e sabe que dizer e não dizer estas palavras não importam: pois, independentemente de serem expressas por meus lábios, estão lá, no mais íntimo do meu ser. E se me perguntarem o que ele é pra mim, agora, afirmo: nada menos que uma palavra utilizada por pessoas religiosas com vistas a apresentar um ser que difere do comum e que é merecedor de uma devoção além da que é dedicada, quando é, aos humanos. Por outro lado, em não existindo ele, bem, em não existindo ele… não há perdão a ser concedido, não há arrependimento, não há justificação. A morte será a senhora diante da qual definitivamente todos nos prostraremos e beijaremos sua gélida mão sem nenhuma perspectiva de ressurreição, reencarnação, etc. No fundo, nada do que falei prova ou “desprova” coisa alguma, apenas descreve palidamente um pouco do que há em mim.”

 

Por Geraldo de Araujo

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Religião e mística – entrevista com Jimmy Sudário Cabral

24 mar

Publicado originalmente no site da TV Horizonte

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