Vídeo

Slavoj Zizek fala sobre o cristianismo

5 mar

Este vídeo é a última parte do filme-documentário The pervert’s guide to ideology do filósofo esloveno Slavoj Zizek  – infelizmente não encontrei uma versão com legendas. No vídeo, Zizek argumenta que a grandeza do livro de Jó não consiste no fato de Jó declarar sua inocência, mas insistir na falta de sentido de suas calamidades. Para Zizek, a grande “sacada” de Jó é perceber que Deus não era justo ou injusto, mas impotente e isso se estende na paixão de Cristo. Numa leitura anacrônica radical do livro de Jó – como ele próprio afirma em seu livro A monstruosidade de Cristo (2014: 78-79) – ele afirma: “Jó previu o sofrimento futuro de Deus – ‘Hoje sou eu, amanhã será seu próprio filho, e não haverá ninguém para intervir por ele. O vês agora em mim é a prefiguração de sua própria Paixão!”

Ainda em outra parte da mesma obra faz uma reflexão um tanto provocativa sobre a  morte desse Deus transcendente:

“Quando somos confrontados com um evento como o Holocausto, ou a morte de milhões no congo nos últimos anos, não seria obsceno dizer que essas manchas possuem um significado mais profundo, pois contribuem para a harmonia de um Todo? Existe um Todo que pode ser justificado teologicamente, e assim redimir ou suprassumir um evento como o Holocausto? A morte de Cristo na cruz, desse modo, significa que deveríamos  nos livrar imediatamente da noção de Deus como um cuidador transcendente que garante o resultado feliz de todos os atos, a garantia da teologia histórica – a morte de Cristo na cruz é a morte desse Deus, ela repete a posição de Jó, ela recusa qualquer “significado mais profundo” que ofusque a realidade brutal das catástrofes históricas.” (2014: 77)

Ficam aqui registradas essas provocações zizekianas!

 

ZIZEK, Slavoj. A monstruosidade de Cristo: paradoxo ou dialética? São Paulo: Três estrelas, 2014.

A incógnita do medo

4 mar

Teu golpe

Teu galope

 

Lambe a terra

Quebra a pedra

Fere a fera

 

Teu verso

Teu cetro

 

Esmaga

A noite escura

A serpente nua

A água turva

 

No teu golpe

No teu galope

 

Cravas nas trevas

Cavaleiro

Um nome cruel

Um suspiro derradeiro

 

A Incógnita do Medo.

 

Mailson Cabral

o cavaleiro

O que é um agnóstico?

1 mar

Essa é uma tradução livre que fiz de um dos textos do Bertrand Russell em que ele explica o que é um agnóstico e no que consiste a sua posição agnóstica a respeito da religião. Esse artigo do Russell em formato de perguntas e respostas apareceu pela primeira vez no Cowles Magazine em 1957. Selecionei apenas alguns trechos do texto para a tradução que melhor respondiam aos questionamentos mais gerais a respeito das diferenças entre ateísmo e agnosticismo e em que acredita um agnóstico ( o texto completo tem oito páginas e pode ser conferido em inglês aqui).

O que é um agnóstico?

Um agnóstico pensa ser impossível conhecer a verdade em questões como Deus e vida futura com que o cristianismo e outras religiões estão preocupadas. Ou, se não for possível, pelo menos é impossível até o presente momento.

 

São os agnósticos ateus?

Não. Um ateísta, como um cristão, defende que nós podemos saber se existe ou não um Deus. O cristão defende que nós podemos saber que existe um Deus; o ateu, que nós podemos saber que não existe. O agnóstico suspende o julgamento, dizendo que não há provas para afirmar ou negar. Ao mesmo tempo, um agnóstico pode sustentar que a existência de Deus, embora não impossível, é muito improvável; ele pode até sustentar que isso é tão improvável que não tem valor considerar isso na prática. Neste caso, ele não está muito distante do ateísmo. Sua atitude pode ser a que um filósofo cuidadoso teria para com os deuses da Grécia Antiga. Se me pedissem para provar que Zeus, Poseidon, hera e o resto dos deuses do Olimpo não existem, eu seria um perdedor em encontrar argumentos conclusivos. Um agnóstico pode pensar que o Deus cristão é tão improvável quanto os do Olimpo; nesse caso, ele é, por propósitos práticos, um com os ateístas.

 

Você considera todas as religiões como formas de supertição ou dogmas? Qual das religiões existentes você mais respeita, e por quê?

Todas as religiões organizadas que tem dominado grandes populações tem envolvido uma grande ou pequena quantidade de dogmas, mas “religião” é uma palavra que o significado não é muito definitivo. O confucionismo, por exemplo, pode ser chamado de religião, embora ele não envolva dogmas. E em algumas formas de cristianismo liberal, o elemento do dogma é reduzido ao mínimo.

Das grandes religiões da história, eu prefiro o Budismo, especialmente em suas primeiras formas, porque ele tem tido o menor elemento de perseguição.

 

Agnósticos pensam que ciência e religião são impossíveis de se reconciliar?

A resposta está sobre o que se querer dizer com religião. Se isso significa meramente um sistema de éticas, ela pode ser reconciliada com a ciência. Se isso significa um sistema de dogmas, considerando como inquestionavelmente verdadeiro, é incompatível com o espírito científico, que recusa aceitar questão de fato sem evidência, e também sustenta que a certeza completa é raramente possível.

 

Qual tipo de evidência poderia convencê-lo que Deus existe?

Eu penso que se escutasse uma voz do céu predizendo tudo que iria acontecer comigo durante as próximas vinte e quatro horas, incluindo eventos que iriam parecer altamente improváveis, e se todos esses eventos então produzidos acontecessem, eu poderia talvez ser convencido pelo menos da existência de alguma inteligência super-humana. Eu posso imaginar outra evidência do mesmo tipo que poderia convencer-me, mas por enquanto como sei, nenhuma evidência existe.

 

 

 

RUSSEL, Bertrand. The basic writings of Bertrand Russell. New York: Routledge, 2009. p. 557-567.

 

 

 

Respondendo a alguns questionamentos sobre o texto “Da minha imprestabilidade para cultos e orações”

24 fev

Na imensidão oceânica que se tornou a internet – e este blog é apenas um singelo barco a remo nela – é sempre bom quando encontramos alguém que levanta questionamentos instigantes sobre o que escrevemos. Recebi hoje via facebook do amigo Geraldo Araújo, teólogo ateu, alguns apontamentos críticos sobre meu último texto “Da minha incredulidade para cultos e orações” que faço questão de reproduzir logo abaixo:

Alguns questionamentos:

  1. Se é uma “necessidade humana” porque você acha, se é que entendi corretamente, que você está fora dessa carência?
  2. Essa sua busca por compreensão do que chamamos de fenômeno religioso me faz lembrar uma fala do Gilbraz naquele vídeo que você me enviou (conferir aqui). Lembro que ele falou do descrédito das instituições. Contudo, por outro lado, a espiritualidade está em alta. Pessoas abandonam o templo, mas adoram nos lugares aparentemente menos “sagrados”.

Em outras palavras, o que quero dizer, é que a secularização, neste caso, não é um contraponto à religiosidade. Na minha opinião, a secularização é (talvez apenas parcialmente) um motor à religiosidade não institucional. Digo isso porque em seu texto há um “apesar da crescente secularização do mundo”.

  1. Pra pensarmos: será que esse “insisto nela, sempre estou a me debater ‘com’ ela e contra ela” não seria o mesmo que “essa necessidade humana de autotranscendência” só que, neste caso, fazendo as coisas passarem pelo crivo da racionalidade?

 

Ok, vamos responder ponto a ponto:

  1. Quando digo no texto que há uma necessidade humana de autotranscedência não quero fazer confundir isso com a religião. A autotranscedência pode ser buscada na religião, assim como nas artes, na política e nas drogas. Obviamente que cada uma trará experiências diferentes, mas ainda sim se tem nessa busca a mesma finalidade de se autotranscender.
    Não acho que me situe fora dessa necessidade, a questão é que não mais a procuro pelos meios religiosos, na posição de um fiel.
  2. Quando falo da secularização (termo tão demonizado pelos crentes) é justamente nesse sentido do descrédito da religião institucional como também na virada cultural que a modernidade nos lançou a respeito das nossas crenças e ideias religiosas. As concepções do que seja o sagrado dentro da vida privada como em escala social parece estar em deslocamento, é nesse sentido que Jose Casanova, um sociólogo das religiões, vai até falar de uma concepção emergente de “sagrado secular”.
  3. Aqui não saberia dar uma resposta objetiva. Sim, admito que possa ter refletido nisso uma busca por autotranscendência, mas também digo que se todo o entendimento racional que se busco sobre a questão é essa busca, apenas com os fios invertidos como você colocou, penso que sou o pior dos místicos. Estaria mais para um “Mr. M” das religiões.

Termino dizendo o mesmo que disse a outro amigo que sugeriu que há algo de “espiritualidade” nessa minha busca: se do pó e das cinzas de estrelas apagadas surgir alguma coisa que a gente possa chamar de espiritualidade… Talvez um dia venha a emergir desse blog um ogro terrível ou um espírito de luz. De preferência alguma cria da copulação violenta desses dois!

 

Mailson Cabral

Da minha imprestabilidade para cultos e orações

21 fev

Já faz tempo que me tornei imprestável para cultos e orações, coisas que outrora animavam minha fé. Hoje essas coisas se tornaram indiferentes para mim, não me trazem nenhum tipo de alívio psicológico ou alucinação narcótica. Até entendo essa necessidade humana de autotranscedência que se busca na religião, um senso de completude e comunhão que ela traz, uma libertação de alguma parte de nossa personalidade que nos é pesada ou difícil de encarar. O que não posso mais aceitar é entrar nesse jogo de se por de joelhos, de se lançar ao abismo com a crença de que mesmo passando pelas mais densas trevas cairei nos braços de deus.

Minha descrença comeu todos os elementos que na minha adolescência marcaram minhas formas de compreender a religião: bíblia, oração, templo, deus, serviço, teologia… uma enchente levou todos os móveis do meu pequeno mundo cristão e esse mundo em si.  O que sobrou foi uma vontade de entender como as crenças e experiências religiosas funcionam, como são produzidas e porque persistem apesar da crescente secularização do mundo.

Trata-se de uma virada antropológica: de uma teodicéia; meu interesse se moveu para uma antropodicéia. Talvez por isso eu tenha me tornado mais um homem de tavernas do que de templos. Às vezes penso se não faria mais sentido simplesmente esquecer toda essa questão em torno da religiosidade e migrar para qualquer outro campo do conhecimento que não tivesse mais relação com isso. Porém insisto nela, sempre estou a me debater com ela e contra ela. Tenho para mim que seja algum tipo de possessão, uma ideia que possuo e que me possui na direção de tentar entender o que seja a religião.

E nessa luta vou caminhando, lendo, refletindo – e vertendo o sangue de cada texto, de cada ideia.

 

Mailson Cabral

Sobre um tipo ideal de homem

21 fev

“Na falta de um modelo, um tipo de homem seria meu ideal. Seu equilíbrio se modifica, se destrói e se reformula no campo de batalha das contradições. Ele não quer deixar o terreno das contradições. Não quer expulsar o negativo do mundo, mas participar de suas energias. Não quer destruir o positivo, mas resistir à pretificação. Não quer nem escapar ao real nem aceitá-lo, mas gostaria que o real fosse transformado e talvez espere que este real seja um dia transfigurado. Esforça-se para tornar criativa em si próprio a luta dos contrários. Tragédia, comédia, epopeia e farsa estão para ele indissoluvelmente presentes a cada instante. Ele se sabe enfermo, particular, mas o que o comove é a universal miséria de cada um e não a solidão. A solidão é a enxaqueca do mundo burguês. Este homem não odeia nada nem ninguém. Suas duas paixões são o amor e a curiosidade é uma energia sem fronteiras. Seus amores não se excluem nem se tornam insípidos. Este homem adulto é, ao mesmo tempo, muito velho, criança e adolescente. Está sempre em formação. Obstina-se em procurar o além.”

 

MORIN, Edgar. Em busca dos fundamentos perdidos: textos sobre o marxismo. Porto alegre: Sulina, 2010. p. 68-69.

Joy Division – Disorder

1 fev

 

Ao escutar essa música do Joy Division é impossível não lembrar do poema “A música” de Charles Baudelaire. É como se as canções do Joy Division sintetizassem o espírito do seu tempo.  Angústia, depressão e um certo niilismo implacável  estão presentes nelas, o que lembra muito os poetas malditos como Rimbaud e Baudelaire.

Meu conselho é: escutar e se contaminar!

 

A música, por vezes, me abraça qual mar

            Rumo a branca estrela,

Sob um teto de bruma ou éter a brilhar,

            Eu coloco à vela;

 

De peito para frente e de pulmões inflados

            Qual se fosse uma tela,

Vou das ondas galgando o dorso encapelado

            Que a noite vela;

 

Em mim sinto vibrar todas essas paixões

            De nau em cataclismo,

O bom vento, a borrasca e suas convulsões

 

            Sobre imenso abismo

Me embalam. Outras vezes, calmo, grande espelho

            Do meu desespero!

 

LXIX – A música,  Charles Baudelaire