Diálogos sobre a religião e a morte (parte II)

Esta é a segunda e última parte do diálogo entre eu e o Bruno de Oliveira (do Ao invés do inverso). Acho que no fim das contas saímos com mais dúvidas do que com alguma resposta certa sobre as relações entre a religião e a morte, mas penso que justamente por isso foi um diálogo muito proveitoso, e pego aqui carona no subtítulo do blog dele: “contra posições fixas, não-fixas, contraposições, contra tudo, contra os que estão contra tudo”!

Bruno Oliveira: Apesar de tudo, eu acho que podemos pensar a morte em outro contexto que não o nosso, embora sempre reste alguma dúvida sobre a distância desses dois contextos. Por mais limitada que seja, a crítica – num sentido amplo – é uma forma de separação e permite que nos coloquemos alguns passos mais longe daquilo que criticamos, mesmo que no fim das contas não sejam tantos assim, e também podemos nos beneficiar das críticas feitas por outros nesse sentido e ir mais longe com eles. Quem sabe até voltar para nossa cultura sem se reconhecer nela novamente.

Eu gosto muito da relação que você faz entre morte e medo, e acho que está correto em destacar a morte como um medo particular mais forte que os outros.

Quando você diz que a morte é um tipo de “peso da ausência de ser alguma coisa”, acho isso muito interessante porque, se você reparar bem, ela é uma definição inteiramente voltada para a vida: a “ausência” nesse caso é ausência daquilo que conhecemos, e “ser alguma coisa” é aquilo que pensamos ser atualmente. Trata-se de uma ideia de morte bem “antropomórfica”, digamos assim, que existe com base nos nossos elementos próximos como uma replicação deles. Quando dizemos “morte” não estamos construindo uma outra coisa, nem fazendo qualquer oposição à vida, mas juntando tudo aquilo que é importante no presente e dizendo: todos os dias eu te desejarei mais um dia.

Aliás, pensando aqui, algumas religiões levam muito seriamente esse “antropomorfismo”, dando descrições detalhadas do além-mundo em que ele é muito parecido com o mundo real.

Uma coisa que me impressionou uma vez foi um documentário sobre indígenas em quem um índio velho esperava pacientemente a morte, contudo, não por conta de uma tristeza consigo ou com a vida, mas porque achava que já tinha dado sua contribuição ao mundo e se sentia cansado. Eu fiquei me perguntando sobre como esse índio via a vida para ter aquela tranquilidade toda porque, para mim, parecia impossível ver o mundo assim. Na verdade, ainda me é impossível. Quer dizer, qual relação é preciso manter com a vida para a morte fazer parte dela sem ser de uma maneira doentia?

Supondo que religião seja mesmo medo da morte, será que nossas religiões mais conhecidas são religiões doentias, nascidas de maneiras doentias de lidar com a morte? Seria possível ter uma vida em que a morte estivesse integrada ao nosso viver e, portanto, não precisássemos nem escondê-la nem mascará-la? Ou mais: é possível uma religião que aceite a morte?

Mailson Cabral: Penso que quando mantemos uma postura de negação da morte, isto é, não encará-la como constituinte da vida, estamos fazendo uma negação da vida. E isso cai como uma crítica que vai de encontro com uma sociedade firmada na lógica do consumo: a morte se torna algo tão terrível de se pensar, pois uma vez morto sonhos, desejos, projetos e toda a sorte de anseios não podem mais ser vendidos, o que, por sua vez, abre uma lacuna para um grito: qual o sentido de tudo isso?

Há um hábito religioso que, apesar de me considerar cético, mantenho. Às vezes costumo ir ao cemitério visitar o túmulo da minha família, fico lá por algum tempo pensando nas redes de relacionamentos e histórias pessoais que se cruzaram antes de eu ter nascido. Se pudesse fazer uma única pergunta a eles seria está: valeu a pena viver? Se alguém consegue achar uma resposta afirmativa para isso seja por meios religiosos ou não –  como o índio a que você se referiu – a morte não será um problema. Mas como diria Hegel, “a coruja de Minerva levanta voo somente ao entardecer”.  As penúltimas palavras sobre a morte podem e devem ser dadas pela razão, mas, diante de todo o antropoformismo que de que ela é carregada, para nós o último passo em direção a cova será uma posta de fé, seja na própria razão, numa divindade ou no nada.

É justamente por isso que penso que as religiões sejam bengalas existenciais diante do medo da morte, uma tentativa de suprimir ou ao menos amenizar esse medo fazendo-nos suportar psicologicamente e socialmente o fato de que um dia todos nós iremos morrer. Contudo isso não significa nem de longe que essas respostas encontradas pelas religiões sejam sadias, pelo contrário, uma vez que a morte age como uma ferida na existência temos uma relação traumática com ela e isso vai se refletir nas religiões. Max Muller, considerado o criador da disciplina de ciência comparada da religião, tinha uma definição interessante para a religião, ele a definia como uma “doença da linguagem”. O que não passava de um nome nomen tornou-se uma divindade numen. Talvez o homem na sua relação traumática e doentia com a morte tenha por meio da linguagem manifestado isso na religião. Mas isso é uma conjectura que carece de uma boa base.

Bruno Oliveira: Você acha que a pergunta pela validade da vida poderia ser respondida? Digo, mesmo pensando num fantasma que volte para te responder o que ele pensa agora sobre o que viveu, por exemplo, você acha que alguma resposta poderia ser satisfatória?

É que isso me lembrou de uma anedota sobre o Beethoven em que, depois de tocar uma peça, alguém lhe teria dito: “é linda, mas o que significa?”, e em resposta ele teria voltado ao piano e executado tudo de novo. Em suma, o fantasma poderia voltar e dizer que sim, que a vida valeu a pena, ou dizer que não, que a vida não valeu a pena, mas talvez o único modo definitivo de responder isso seria te levar pela mão para vivenciar toda a vida dele. Aí, depois de viver tudo tal e qual aconteceu, você não diria nem que sim nem que não, você apenas entenderia o que foi viver sendo ele, e essa seria a resposta das respostas, a que responde tudo e não diz nada.

Não sei se fui muito claro, mas quero dizer algo como “faz sentido julgar a vida?”.

Mailson Cabral: Acredito que a pergunta sobre a validade da vida não possa ser respondida satisfatoriamente. Meu devaneio com fantasmas tem mais haver com a minha vontade de que haja uma resposta convincente, o que no fundo esconde uma outra questão ainda mais complicada e sem explicação para mim: por que alguma coisa existe ao invés do nada?

Não sei se faz sentido julgar a vida, mas não passamos pela vida isentos de fazer juízos sobre ela. Uma vez que a vida humana está exposta a constante mudança, ora boa, ora ruim, não há uma trama precisa, a não ser o desfecho com a certeza da própria morte. Isso me lembra de um trecho do Carmina Burana: A detestável vida/ Ora oprime/ E ora cura/ Para brincar com a mente/ Miséria/ Poder/ Ela os funde como gelo.

Diante disso, faz sentido não julgar a vida?

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Diálogos sobre a religião e a morte (parte I)

Basicamente, o texto que segue é um diálogo entre colegas.

Ele constitui a primeira parte de um diálogo entre eu e o Bruno de Oliveira (do Ao invés do inverso) a respeito do tema da morte, englobando religião, filosofia e coisas mais. A ideia foi fazer um diálogo franco e sem grandes rodeios, em que pudéssemos expor nossas posições e inquietações sobre o assunto sem necessariamente concluir uma verdade ao fim. O resultado vocês podem acompanhar logo abaixo.

Mailson Cabral: O que é a morte? Por que ela é o nosso inevitável destino? Talvez seja fácil responder de um ponto de vista fisicista: somos seres vivos e estamos sujeitos à degradação. Mais cedo ou mais tarde iremos parar de funcionar. Mas isso não revolve o problema. O fato de sabermos nosso curso orgânico não elimina as angústias existenciais, uma vez que faz tempo que sabemos disso e nossa existência tem sido marcada não por uma capitulação diante da morte, mas por uma recusa a aceitá-la em sua crueza.

O problema da morte e o que ela representa é uma questão que nos persegue na história e entre as diferentes culturas, sempre numa tentativa de significá-la. Toda sorte de ritos e interditos foram criados no sentido de nos auto-convencer que a morte não é a realidade última das coisas. Até onde a antropologia conseguiu nos mostrar, as nossas crenças religiosas estão diretamente ligadas – ou tem como um dos seus pontos centrais – o destino do homem após a morte.

Nesse sentido, mesmo sendo cético com relação às religiões, tenho para mim que a morte continua a comportar um profundo mistério para nós e ao mesmo tempo a ser um medo existencial derradeiro. Sendo assim, vejo as religiões como bengalas que criamos a fim de nos sustentarmos diante do medo da morte. E é sobre essa relação entre morte e religião que constitui o motivo do nosso diálogo Bruno.

Bruno Oliveira: Eu tenho uma dificuldade inicial para pensar a morte que é o fato de que nasci (e, suponho, você também) numa cultura que a esconde e a mascara, sendo assim, quando falamos de morte, ela sempre soa como algo distante e irreal. A morte é sempre uma coisa dos outros, algo de uma circunstância que não é minha. E como estou dentro dessa cultura, fica difícil pensar como seria pensar a morte estando fora dessa origem, abandonando esses pensamentos que normalmente adotamos em relação a ela.

Seria simples dizer que nossa cultura teme tanto a morte que a dissimula como pode, sendo a cultura um “protesto contra a morte”, como diria um filósofo, e acho que não está errado pensar assim, mas tenho dúvidas se a distância com a qual tratamos a morte não seria um sinal de que ela talvez não tenha o peso que lhe atribuímos ou, ao menos, não da forma como colocamos esse peso. Digo isso porque quando penso na morte a primeira coisa que me ocorre é que não há nada para dizer sobre ela, primeiramente, por uma razão epistemológica, que é nossa ignorância, e, segundamente, por uma razão prática, que é o fato de que nenhuma ação pode evitá-la. O que a ideia de morte traz, no entanto, é um condicionante para a vida, ou seja, ela nos coloca certas condições para viver (uma duração, um finitude) e isso tem por resultado incitar os nossos pensamentos sobre o bom uso do tempo.

Todavia, é especificamente o medo da morte que faz com que criemos nossas ilusões, nossos símbolos, nossas mitologias sobre vida eterna? A morte não poderia ser outra forma de medo da vida, da dor, do esquecimento perante os pares e coisas assim? Em suma, minha dúvida é a seguinte: não poderia ser o nosso medo da morte um medo singular e poderoso, mas ainda assim um medo entre outros, interno à vida, e não um “outro” com o qual a comparamos? A morte é mesmo um “outro”? Ou essa é apenas a maneira como a pensamos em nossa cultura?

Mailson Cabral: Também penso que a nossa cultura procura de diversas maneiras esconder e mascarar a morte – talvez isso seja próprio dela – e o quão difícil é pensar a morte fora do contexto em que estamos inseridos, se que é possível chegarmos a esse grau de distanciamento e abstração.

Lembro-me que com relação ao que acontece com o ser humano quando ele morre, há pelo menos quatro explicações nas grandes tradições de para onde vamos: umas dizem que quando morremos nos reunimos aos nossos antepassados em algum lugar sagrado; outra que retornamos para o nada, pois vivemos numa grande ilusão; temos também a perspectiva reencarnacionista em que voltamos sucessivas vezes a esse mundo a fim de nos aperfeiçoar espiritualmente; e por último a crença na ressurreição, bem conhecida por nós.

Trouxe essas ideias religiosas para ilustrar como a morte adquire uma qualidade simbólica diversa para os homens, de modo que por mais que especulemos não conseguimos abarcar a totalidade de significados que podemos dar a morte. Mas penso que uma coisa é certa: não dá para dissociar a morte do medo. Até onde sei o medo não é uma exclusividade da nossa espécie e ele, em toda a nossa animalidade, protege do perigo, mas também pode nos levar a agir de maneira irracional. Tenho para mim que uma das marcas da nossa espécie é justamente uma luta contra o medo. Acredito que nesse sentido o medo da morte seria um entre os vários medos, porém surge como uma afirmação à vida e oposição ao perigo de ser extinto, penso que aí o medo adquire um status carregado de mais significados e importância simbólica do que os outros.

Contudo confesso que realmente não saberia responder objetivamente se a morte se torna um “outro” ou se é apenas como a pensamos em nossa cultura. Perdoe-me por ser tão metafísico, mas o que fica em minha mente é a morte como um peso da ausência de ser alguma coisa. Lembro-me do corvo de Edgar Alan Poe que repete implacavelmente “never more, never more”!

Inquietações sobre a morte (II) – O peso da ausência

É comum falar-se sobre aproveitar a presença das pessoas, mas quando elas se vão, amargamos a sua ausência. É vão procurar eufemismos, principalmente quando essa ausência é produto da morte, inevitável condição nossa como seres vivos. Por mais simplista que possa parecer àquela lógica que se aprende sobre o ciclo biológico da vida no primário ela continua verdadeira: “os seres vivos nascem, crescem, reproduzem e morrem”.

Com a morte vai-se não só essa coisa genérica que chamamos – não sei se por arrogância ou demência – de Homo sapiens, mas também os nossos próximos. Sei que é bem verdade que são poucos aqueles a quem podemos chamar de próximos, estes são as pessoas que amamos. Para céticos como eu, não há retornos após a morte, nada de reencarnação, ressurreição ou vida pós-morte do indivíduo. Tudo, absolutamente tudo o que nos é relevante de uma pessoa, sabedoria, amizade, amor ou até mesmo o contrário dessas virtudes persistem em nossas memórias na forma de lembranças.

De fato não sabemos o dia que nascerá amanhã, nem se nele nós e nossos amados estaremos, portanto, a frase de Horácio, poeta da Roma Antiga, continua válida: carpe diem. É verdade que normalmente as pessoas de quem somos mais próximos são, com frequência, com as quais mais temos discussões. Ainda temos muito o quê aprender na compreensão do outro pela simpatia, pela generosidade, pelo o reconhecer da alteridade, é um processo que demanda tempo.

Porém quando nos damos conta de quão fugaz é a presença, podemos de alguma maneira encontrar caminhos para superar esses problemas. Quando o peso da ausência enche nossa casa confesso que não existem fórmulas mágicas para resolver o problema, metáforas poéticas, por mais belas que sejam não eliminam o problema da ausência, da dor, do sofrimento.

A alternativa que fica é guardar o que de melhor podemos das pessoas que amamos: as boas lembranças, os momentos juntos. Isto é o que resta, todo o mais é retórica e choro de carpideiras.

Mailson Cabral.

Inquietações sobre a morte (I)

A morte, eis a derradeira questão filosófica. O que fazer diante dessa “indesejada das gentes”, como diria o poeta Manuel Bandeira? Quando ela bate a nossa porta, como proceder? Ela é realmente o fim? Há vida após a morte? De fato morremos mesmo? Não seria ela parte de um ciclo retroativo, ou até mesmo algo karmico?

Podemos levantar vários tipos de questionamentos, conhecer toda a filosofia, mas não podemos escapar da implacabilidade fisiológica da morte, estamos sujeitos à segunda lei da termodinâmica: tendemos à degradação. Pelo menos na perspectiva contemporânea ocidental (espero não está sendo vago com isso) a morte é uma fatalidade que revela nossa impotência diante da finitude da vida. Por mais que tenhamos nos desenvolvido tecnologicamente e culturalmente não deixamos de ser mortais. Vive-se muito mais hoje do que há cinco séculos, não há dúvida, contudo continuamos mortais.

Com a questão da morte se evidencia para nós a fragilidade da vida. Mas o que é a vida? Por que ela escorre tão rápido por entre os nossos dedos? Ela se desfaz tão facilmente, como uma bolha de sabão. Quando o fôlego cessa, sabemos que a vida, pelo menos a nível pragmático, se esvai junto. Isso se demonstra bem sempre que queremos descrever a personalidade de uma pessoa, dizemos coisas do tipo “ela é temperamental”, “ela é caridosa”, mas depois que a pessoa morre mudamos para “ela era temperamental”, “ela era caridosa”. Há muito mais do que uma simples mudança do tempo verbal: há uma noção de fim de existência implícita. O ser já não é, mas era. É sutil a mudança, mas o peso dela é muito mais do que gramatical, mexe-se com questões existenciais. É como se o fôlego esvaeceu-se, mas persistisse na nossa memória as lembranças dos que já se foram, sejam elas boas ou más, na forma de palavras e de atos.

Nesse ambiente antropologicamente quantificado do qual fizemos o planeta, o homem não pode aceitar a dureza da natureza. Concordo com Albert Camus quando ele diz que “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” Há por nossa parte um tipo de recusa à morte.

Penso que o pensamento mítico do homem primitivo tem raízes profundas no medo e no mistério da morte. Desde tempos imemoriais tentamos superar a morte, a não existência. Mas o que poderá superar a morte? Ela é como o corvo de Alan Poe que sempre repete implacavelmente “never more, never more!” Por mais respostas que uma filosofia ou até mesmo as religiões tentem oferecer para a questão da morte, elas nunca chegam a um ponto final, antes disso a morte lambe os pés dos filósofos e religiosos. Não seria mais sábio encarar a realidade da morte sem fugas, sem soteriologias ou “self deception”?

Todavia queremos, podemos de fato fazê-lo? Eis aí a questão para a qual ainda não encontrei peritos. 

Mailson Cabral.