Metamorfose

Eis a grande virtude que habita quando passamos por uma crise: a metamorfose. No campo religioso tive minha crise. Tal como uma lagarta, fechei-me e comecei o meu processo de desconstrução e autoreconstrução de identidade religiosa. Com uma organização e uma forma de borboleta, diferente da lagarta, todavia permanecendo o mesmo, sai da crise. Em vão procuram os curiosos o meu casulo, agora voo livre e leve. Isso não é coisa que se explique ou se entenda olhando para as minhas cascas: é necessário querer voar também.

Mailson Cabral.

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Comunhão e refeição: um caminho para a humanização

O sentimento de fraternidade e de comunhão é algo que está presente nas diferentes tradições religiosas, mas que considero que está além delas. Penso que isto é expresso de maneira muito significante na refeição.

Acredito que nós, que vivemos nesta correria moderna, perdemos muito do sentido simbólico da refeição. Comemos às pressas, sem nunca poder perder tempo, sempre atrasados, é difícil parar e refletir no valor fraterno desse ato. Para o homem primitivo, a alimentação era algo decisivo, provavelmente ter o que comer era uma das coisas que mais ocupava a mente do homem. É verdade que já não vivemos mais em cavernas e não somos caçadores e coletores como os nossos ancestrais. De fato não sabemos na prática o valor que tinha para eles a caça, o plantio e a colheita, nem a desgraça que operava nas mentes ao ver o próprio grupo perecer pela escassez de alimentos.

Penso que na refeição ultrapassa-se o simples ato da alimentação, onde cada um sacia a sua fome e logo se retira para um canto, no comer junto se revela um dos nossos primeiros traços de humanidade, a consciência de comunhão, partilha-se não só alimento, mas também da presença dos que estão juntos. Não é à toa que os evangelhos se valem da última ceia para evocar isto, principalmente no evangelho de João.

As experiências de comunhão que são proporcionadas nos momentos de refeição talvez sejam as que podem melhor indicar para o senso de solidariedade para a raça humana. Todavia seja por questões de pobreza, – o que é uma vergonha para nós, porém não para muitos que têm a mesa farta – ou por questões familiares, desavenças religiosas, ou qualquer espécie de conflito, o pão e a comunhão são negados a muitos. Esquece-se que a partilha do pão tem a capacidade de nos humanizar.

A humanidade começa à mesa. Sem pão, vinho e comunhão o homem vive uma incompletude como ser. Nos espaços aonde há de fato comunhão, não há lugar para desavenças e intrigas, nestes espaços é onde eu quero estar. Independente das crenças ou não crenças.

Mailson Cabral.

Inquietações sobre a morte (II) – O peso da ausência

É comum falar-se sobre aproveitar a presença das pessoas, mas quando elas se vão, amargamos a sua ausência. É vão procurar eufemismos, principalmente quando essa ausência é produto da morte, inevitável condição nossa como seres vivos. Por mais simplista que possa parecer àquela lógica que se aprende sobre o ciclo biológico da vida no primário ela continua verdadeira: “os seres vivos nascem, crescem, reproduzem e morrem”.

Com a morte vai-se não só essa coisa genérica que chamamos – não sei se por arrogância ou demência – de Homo sapiens, mas também os nossos próximos. Sei que é bem verdade que são poucos aqueles a quem podemos chamar de próximos, estes são as pessoas que amamos. Para céticos como eu, não há retornos após a morte, nada de reencarnação, ressurreição ou vida pós-morte do indivíduo. Tudo, absolutamente tudo o que nos é relevante de uma pessoa, sabedoria, amizade, amor ou até mesmo o contrário dessas virtudes persistem em nossas memórias na forma de lembranças.

De fato não sabemos o dia que nascerá amanhã, nem se nele nós e nossos amados estaremos, portanto, a frase de Horácio, poeta da Roma Antiga, continua válida: carpe diem. É verdade que normalmente as pessoas de quem somos mais próximos são, com frequência, com as quais mais temos discussões. Ainda temos muito o quê aprender na compreensão do outro pela simpatia, pela generosidade, pelo o reconhecer da alteridade, é um processo que demanda tempo.

Porém quando nos damos conta de quão fugaz é a presença, podemos de alguma maneira encontrar caminhos para superar esses problemas. Quando o peso da ausência enche nossa casa confesso que não existem fórmulas mágicas para resolver o problema, metáforas poéticas, por mais belas que sejam não eliminam o problema da ausência, da dor, do sofrimento.

A alternativa que fica é guardar o que de melhor podemos das pessoas que amamos: as boas lembranças, os momentos juntos. Isto é o que resta, todo o mais é retórica e choro de carpideiras.

Mailson Cabral.

Inquietações sobre a morte (I)

A morte, eis a derradeira questão filosófica. O que fazer diante dessa “indesejada das gentes”, como diria o poeta Manuel Bandeira? Quando ela bate a nossa porta, como proceder? Ela é realmente o fim? Há vida após a morte? De fato morremos mesmo? Não seria ela parte de um ciclo retroativo, ou até mesmo algo karmico?

Podemos levantar vários tipos de questionamentos, conhecer toda a filosofia, mas não podemos escapar da implacabilidade fisiológica da morte, estamos sujeitos à segunda lei da termodinâmica: tendemos à degradação. Pelo menos na perspectiva contemporânea ocidental (espero não está sendo vago com isso) a morte é uma fatalidade que revela nossa impotência diante da finitude da vida. Por mais que tenhamos nos desenvolvido tecnologicamente e culturalmente não deixamos de ser mortais. Vive-se muito mais hoje do que há cinco séculos, não há dúvida, contudo continuamos mortais.

Com a questão da morte se evidencia para nós a fragilidade da vida. Mas o que é a vida? Por que ela escorre tão rápido por entre os nossos dedos? Ela se desfaz tão facilmente, como uma bolha de sabão. Quando o fôlego cessa, sabemos que a vida, pelo menos a nível pragmático, se esvai junto. Isso se demonstra bem sempre que queremos descrever a personalidade de uma pessoa, dizemos coisas do tipo “ela é temperamental”, “ela é caridosa”, mas depois que a pessoa morre mudamos para “ela era temperamental”, “ela era caridosa”. Há muito mais do que uma simples mudança do tempo verbal: há uma noção de fim de existência implícita. O ser já não é, mas era. É sutil a mudança, mas o peso dela é muito mais do que gramatical, mexe-se com questões existenciais. É como se o fôlego esvaeceu-se, mas persistisse na nossa memória as lembranças dos que já se foram, sejam elas boas ou más, na forma de palavras e de atos.

Nesse ambiente antropologicamente quantificado do qual fizemos o planeta, o homem não pode aceitar a dureza da natureza. Concordo com Albert Camus quando ele diz que “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” Há por nossa parte um tipo de recusa à morte.

Penso que o pensamento mítico do homem primitivo tem raízes profundas no medo e no mistério da morte. Desde tempos imemoriais tentamos superar a morte, a não existência. Mas o que poderá superar a morte? Ela é como o corvo de Alan Poe que sempre repete implacavelmente “never more, never more!” Por mais respostas que uma filosofia ou até mesmo as religiões tentem oferecer para a questão da morte, elas nunca chegam a um ponto final, antes disso a morte lambe os pés dos filósofos e religiosos. Não seria mais sábio encarar a realidade da morte sem fugas, sem soteriologias ou “self deception”?

Todavia queremos, podemos de fato fazê-lo? Eis aí a questão para a qual ainda não encontrei peritos. 

Mailson Cabral.

 

Contra o Reino de Deus

Só se pode falar em liberdade do cristão se ele se livrar do Reino de Deus. Enquanto ele for servo de um monarca celeste, sua liberdade será sempre aviltada em nome do Reino.

Reinos celestes são perversamente mortais: projeta-se a vida e as esperanças num por vir que nunca virá. Suporta-se toda forma de opressão disfarçada em nome do Reino, bem ao modelo do servo sofredor. Espera-se sempre por um salvador que nunca virá, e nessa espera o cristão vai tendo sua vida e vigor tragados pelos mitos, pelos sacerdotes, por Deus…

Um cristão nunca poderá ser livre de fato, a não ser que se liberte do Reino de Deus – condição primeira para a liberdade do cristão.

Rogo-vos, portanto, que vos esqueçais de Lutero, senhores!

Mailson Cabral.

Fragmentos (II)

I

O mundo para o crente se divide basicamente entre cristãos e não-cristãos. Nenhuma segregação se mostrou tão perversa quanto essa na história da humanidade dada a extensão da barbárie social e da violência simbólica gerada pelo dogmatismo cristão.

II

Eis o que a religião é: devaneio. Um cálice cheio de devaneio dos mitos é o que ela é, dela os homens se embebedam e se lançam na devoção, no transe, no êxtase, na orgia, na loucura. É o homo ludens que se manifesta em todo o seu vigor e fervor. É um erro da razão dita esclarecida achar que pode banir a existência de sua gêmea ludens,  que a pode tratar de maneira asséptica, livre do que a envergonha.  A racionalidade habita entre a sapiência e a demência.

III

Definição clássica para o cristianismo: utopia de características totalitárias.

IV

Assumimos narrativas míticas para conferir sentido as nossas vidas, não há como escapar disso, sejam essas narrativas religiosas, políticas, ou mesmo éticas, nos guiamos por mitos que criamos e valorizamos. Só por isso se pode falar em sentido da existência, pois criamos um, e por ele nos guiamos.

Mailson Cabral.

Por que a teologia se tornou imprestável?

Por que a teologia se tornou imprestável? Porque ela não concerne mais a realidade. Há tempos atrás, não tão distantes quanto parecem, onde deuses e demônios povoavam o imaginário humano com força e representatividade política estatal, ou seja, teocraticamente, a teologia ainda fazia sentido, mesmo com os absurdos que saltam aos olhos nas páginas dos livros de história, pois havia um Deus que mandava e desmandava a seu bel-prazer, justificavam-se as ações do monarca como vontade divina.

Acontece que o Deus, o velho monarca, perdeu muito da sua força de outrora com o advento da modernidade, pelo menos como chefe de Estado. Com a concepção moderna de democracia no século XVIII a derrubada das monarquias absolutistas pela burguesia foi inevitável. Os homens deixaram de ser súditos para se tornarem cidadãos. Com a consolidação dos primeiros estados democráticos modernos, Estado e igreja são finalmente separados, o Deus cristão perde poder.

Com Deus banido como “senhor” da esfera política mudanças que já estavam em curso começam a se evidenciar com mais força: a ruptura com a própria ideia de Deus, pois ele já não se adéqua a esse novo contexto. Não é toa que Nietzsche declara a morte de Deus: a influência da religião é cada vez menor na vida do homem moderno, a secularização coloca Deus para a esfera do privado, não mais como expressão do vigor e força dos povos.

Dado que o objeto de estudo da teologia clássica está morto, ou melhor, em avançado estado de decomposição, tenho a impressão que muitos teólogos não passam de necromantes. A teologia clássica, isto é, sistemática, dogmatizada, bibliolátrica, feita pelos teólogos para os templos se tornou imprestável. Houve tentativas de atualizar a teologia com autores como Barth, Moltmann, Tillich e outros que perceberam a decadência da teologia, todavia tudo continua a girar em torno do cadáver do velho Deus, embora alguns mais liberais insistam o contrário.

O fato é que a teologia é antropologia, como bem denunciou Feuerbach. Logo, o objeto de estudo da teologia, Deus, é um objeto falsificado, pois no fim das contas estamos a falar dos homens com suas máscaras de Deus e seus discursos sobre ele. Não há para onde correr, o centro da questão é demasiadamente humano, não há como fugir disso. Se a teologia for posta cruamente nestes parâmetros das duas uma: ou ela se desintegra ou entra em metamorfose, isto é, converte-se as ciências humanas.

Aos olhos de muitos teólogos isso parece uma perversão, pois aí morre o moralismo da teologia cristã e sua capacidade de evocar fundamentos ontológicos para a sua razão de ser. É um verdadeiro ataque ao epicentro cristão: o dogma.

Para que a teologia assuma uma postura consciente de si, sem a hipocrisia sacerdotal, é necessário ela assumir sua condição humana, e não fingir ser o que não é. Talvez então possamos chamar a teologia de reflexão sobre a fé a luz da racionalidade crítica.

Todavia já se passaram mais de 110 anos desde que Nietzsche e Feuerbach fizeram suas denuncias, mas os teólogos não entenderam a mensagem, continuam a carregar o cadáver do seu deus nas costas.

Mailson Cabral.