Arquivo | Citação RSS feed for this section

Uma lição de Hans-Jurgen Greschat sobre o que é ser autor

11 abr

“Os autores mostram respeito por si mesmo quando se mantêm honestos. Eles apresentam-se ao público com o que escrevem. Isso deixa alguns angustiados e outros vaidosos, o que faz com que rebusquem o que vai ser comunicado para que o conteúdo aparente mais do que realmente é. Quem não conhece as frases afetas, a fala ‘inchada’, os neologismos espetaculares? Quem escreve dessa maneira oferece a seus leitores água de torneira em copos de champanhe feitos de cristal falso. Aqueles que querem manter-se honestos dizem o que têm, mesmo quando isso é pouco ou não representa nada de extraordinário. Todavia, se trabalham profundamente com um objeto comum, seu texto deve ser útil para outros. Honestidade faz parte da autenticidade que, hoje em dia, é a aspiração de muitos autores, até mesmo cientistas. Afinal de contas, leitores espertos, sejam eles colegas, sejam  leigos, reconhecerão o que é autêntico e o que é falso.”[1]

 

[1] GRESCHAT, Hans-Jurgen. O que é ciência da religião? São Paulo: Paulinas, 2005, p.44.

Anúncios

A literatura como revolta contra o tempo histórico

3 mar

De modo ainda mais intenso que nas outras artes, sentimos na literatura uma revolta contra o tempo histórico, o desejo de atingir outros ritmos temporais além daquele que somos obrigados a viver e trabalhar. Perguntamo-nos se esse anseio de transcender o nosso próprio tempo, pessoal e histórico, e de mergulhar num tempo “estranho”, seja ele extático ou imaginário, será jamais extirpado. Enquanto subsistir esse anseio, pode-se dizer que o homem moderno ainda conserva um “comportamento mitológico”. Os traços de tal comportamento mitológico revelam-se igualmente no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu, ou conheceu, uma coisa pela primeira vez; de recuperar o passado longínquo, a época beatífica do “princípio”. 

Como era de se esperar, é sempre a mesma luta contra o Tempo, a mesma esperança de se libertar do peso do “Tempo morto”, do tempo que destrói e que mata.[1] 


[1] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, p.164-165

 

Um pouco da nossa cosmologia

30 jan

“O Sol brilha à temperatura da sua explosão. A vida organiza-se à temperatura de sua destruição. O homem talvez não se tivesse desenvolvido se não lhe fosse preciso responder a tantos desafios mortais, desde o avanço da savana sobre a floresta tropical até a glaciação das regiões temperadas. A aventura da hominização deu-se em meio à penúria e ao sofrimento. Homo é filho de Poros e Penia. Tudo o que vive deve regenerar-se incessantemente: o Sol, o ser vivo, a biosfera, a sociedade, a cultura, o amor. É nossa constante desgraça e também é nosso privilégio: tudo que há de precioso na terra é frágil, raro e destinado a futuro incerto. O mesmo acontece com a nossa consciência.

Assim, quando conservamos e descobrimos novos arquipélagos de certezas, devemos saber que navegamos em um oceano de incertezas.”[1]

tempestade-solar-grande

 


[1] MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, p.58-59.

Sobre as religiões

20 jan

“Religiões são como mesas de banquetes: tudo está preparado e há desde pratos rigorosamente destinados às dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne… E os fieis se aproximam, cada qual com seu pratinho, e escolhem… Veja, observe! Já vão saindo com os seus pratos cheios. Os lobos, os inquisidores e os caçadores de bruxas trazem nos seus pratos coisas que não se encontram nos pratos dos cordeiros e das vítimas… Escolheram as ideias que mais apeteciam aos seus paladares e menos ofendiam aos seus estômagos.”[1]


[1] ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Edições Paulinas,1982, p.10-11.

Edgar Morin e seus três parágrafos de tirar o fôlego sobre o cristianismo!

13 dez

Uma rápida, porém intensa e incisiva visão da barbárie produzida pelo cristianismo ao longo dos séculos na visão de Edgar Morin.

“O Império Romano se caracterizava, antes do cristianismo, pela tolerância religiosa. Os cultos mais diversos, inclusive o culto dos deuses da salvação, tais como Osíris, Mithra, e também o orfismo, eram perfeitamente aceitos. O monoteísmo judeu, e em seguida o cristão, trouxe, juntamente com o seu universalismo potencial, a sua intolerância específica – que eu chamaria de barbárie específica -, fundada sobre o monopólio da verdade da sua revelação. Com efeito, o judaísmo não podia senão conceber os deuses romanos como ídolos sacrílegos. E o cristianismo, com o seu proselitismo universalista, viria apenas a acentuar essa tendência. Enquanto o judaísmo tinha a possibilidade de se manter isolado, nessa aliança privilegiada que acreditava manter com Deus, o cristianismo procurou destruir os outros deuses e as outras religiões. Além disso, o seu reconhecimento como única religião do Estado levou ao fechamento da escola de Atenas, pondo fim, desse modo, a toda a filosofia autônoma.

Uma das armas da barbárie cristã foi a utilização de Satanás. Obviamente, é preciso ver nessa figura o separador, o rebelde, o enganador, o inimigo mortal de Deus e dos humanos. Aquele que se opuser e que não quiser renunciar  à sua diferença fatalmente estará possuído por Satanás. Essa máquina argumentativa delirante foi uma das formas encontradas pelo cristianismo para exercer sua barbárie. É bem verdade que a arma satânica não é exclusividade do cristianismo. Vemos hoje claramente o quanto a imagem de Satanás surge mais do que nunca no virulento discurso islâmico.

E mesmo quando surgiram no interior do cristianismo triunfante correntes de pensamento divergentes da mensagem de origem, em vez de tolerá-las, ele reagiu, elaborando uma ortodoxia impiedosa, denunciando os desvios como heresias, perseguindo e destruindo com ódio, em nome da religião do amor[1]”.


[1] MORIN, Edgar. Cultura e barbárie europeias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 20-21

Citação

“Os homens são …

22 out

“Os homens são divindades mortais, e os deuses dos homens, imortais vivendo de nossa morte, morrendo de nossa vida” (Heráclito)