Contra teologia

Há um sério problema na relação do crente com a bíblia. Chega a ser em muitos casos, doentia. E o que torna essa relação patológica é a própria teologia cristã, ela é o pathos da coisa.

As teologias corroboradas por cada confissão de fé são o verme que come a carne e os miolos do crente. E isso não se dá pelo fato de que as igrejas não tenham o direito de justificar a sua razão de ser em deus e na bíblia, a questão é o quão manipulado pela política institucional se dá essa relação de fé e bíblia no meio cristão, e principalmente no evangélico. Aquela coisa bonita de livre interpretação nunca foi livre de verdade, a diferença é que se podia agora checar o que uma determinada teologia interpretou do texto, o que ela diz ser a leitura correta.

Não se trata, em termos grosseiros, de se apropriar da “mensagem”, (ou seriam mensagens?), mas forçar o texto a dizer algo que ele nunca disse. Algo que o seu autor nunca pretendeu comunicar. Ou ainda descontextualizar o texto de seu contexto histórico-social. E outro detalhe: não se assume a sua própria hermenêutica confessional que se lança sobre os textos como produto da história e cultura, porém de natureza divina. Isso, a meu ver, é de uma maledicência sem limites para com o fiel. História, exegese e hermenêutica – críticas, vale-se ressaltar – deveriam caminhar juntas com qualquer teologia que se pretendesse séria.  Não se pode eliminar a intenção do autor e seu tempo histórico em detrimento de uma confissão teológica, isso é má fé.

Todo esse papo um tanto técnico parece bem distante da realidade prática de uma igreja, e de fato está. E é justamente por isso que perdeu-se muito em termos de possibilidades de se reinterpretar a relação do fiel com a bíblia, da comunidade de fieis quanto comunidade e sua relação com o restante do mundo e da própria concepção de teologia cristã. Danos irreparáveis. Não posso deixar de dizer isso já que sou uma cria, ainda que um tanto distante é verdade, da Reforma. Em consequência desse fechamento ideológico da tríade política-dogma-instituição se reproduz a torto e a direito: alienação religiosa. As concepções de fé, salvação, diálogo e comunhão ficam limitadas pelas lentes da denominação, salvo raras exceções.

Não há uma leitura única da bíblia, nem no cânon de Niceia e muito menos no de Lutero. Múltiplas leituras, múltiplas disputas… Múltiplos são também os engajamentos que determinam as práxis teológicas de cada instituição que surgem a partir dessas leituras.

A meu ver, a única saída possível é de baixo para cima: o crente deve buscar sua autonomia como sujeito religioso para além da sua denominação e para além da sua religião. A questão é que as ferramentas epistemológicas para isso não estão no contexto da igreja, elas não as dá e muito menos incentiva a essa busca, uma vez que sua lógica é a da autopreservação. A educação para autonomia se encontra fora dos muros ideológicos, trata-se de educar o olhar, e não domesticá-lo. Ensinar e não catequizar. Utilizar a racionalidade para repensar a própria fé e não fazer racionalizações teológicas. Essas são coisas que me fazem duvidar severamente sobre o que as igrejas realmente se alicerçam.

Enquanto isso, o que poderia servir como elemento desalienador das massas da lógica niilista capitalista e do consumo pelo consumo, só corrobora sua lógica interna, isso quando não se alimenta da lógica capitalista. Numa palavra: se existir o Espírito Santo, o que compreendo como o amor entre os fiéis e a própria comunidade dos fiéis, ele ainda dorme em suas possibilidades revolucionárias ou jaz em berço esplêndido.

Mailson Cabral

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Notas de uma missa de domingo

Depois de muito tempo sem ir a um culto cristão, acabo por ter um “brainstorm” numa missa de domingo. Acho que o padre não iria gostar muito de ler minhas notas de rodapé para o sermão dele:

I

É preciso se libertar da bíblia como fetiche da fé, como mantra para a alma cansada. É necessário encará-la com seriedade e rigor crítico, ao invés de dar interpretações alegóricas que deixam o fiel alienado da realidade.

II

Quem vive na igreja “deve” ser santo? Você me diz que isso é uma vocação comum a todo cristão? Só se for vocação para a idiotice chamada pelo nome doutrina.

III

Nunca, nunca é Jesus quem fala nos evangelhos padre, são sempre palavras postas na boca dele por meio dos evangelistas e copistas.

IV

“Fora da igreja não há salvação” São Cipriano. Que cara dialogal, o inferno deve ser bem espaçoso pelo visto.

V

A neurose do amor: todo mundo DEVE amor ao próximo. Ora, se amar é um dever, deixa de ser amor. Amar implica liberdade para se escolher amar ou não. Uma ditadura do amor é tudo, menos amor.

 

P.S: É por essas e outras que digo que me tornei imprestável para a igreja, não consigo mais me situar no jogo apologético institucional da igreja nem nas suas leituras de fé. Há quem goste de se embebedar nisso, mas por essas tavernas da fé eu não costumo mais beber.

Mailson Cabral.

O Jesus desconhecido

A igreja teve uma preocupação muito maior em pregar a Jesus, o Cristo, do que a mensagem do Jesus de Nazaré. A própria autoridade da igreja seja de Roma, dos reformados, dos batistas, ou dos pentecostalismos, está alicerçada basicamente na ideia que ela está estabelecida por Deus aqui na terra, que ela é o corpo de Cristo.

Porém é  aqui onde está o vespeiro: esquece-se que o Jesus da fé é construção histórico-cultural dos cristãos, o que se tem por revelação é na verdade invenção da tradição. Até mesmo reconstruir um retrato biográfico de Jesus de Nazaré a partir dos evangelhos é uma coisa complicada, pois eles são leituras de fé das primeiras comunidades cristãs.

Todavia não posso dizer que os evangelhos não contenham nada de verossímil a respeito de Jesus de Nazaré, que tudo é pura ficção.  Isto seria cair num outro extremo. O que temos é uma questão muito delicada, uma vez que há sempre uma carga mística do herói muito forte em torno da figura de Jesus. Ao que podemos chegar a nível de pesquisa é no máximo elaborar hipóteses com as fontes históricas que temos disponíveis a respeito de quem foi Jesus e nisso, queira-se ou não, os evangelhos se fazem indispensáveis.

Mas vamos combinar, tem certas situações no Novo Testamento que Jesus mais parece um super-herói da Marvel do que um ser humano, ainda que, vá lá, filho de Deus segundo a tradição cristã. Assumir que as narrativas evangelísticas são construções mitológicas em torno da figura de Jesus é uma tarefa um tanto complicada para o cristão, pois ele as toma frequentemente como narrativas reais, ainda que num passado bem distante e muitas vezes não tão preciso, porém reais. Tal posicionamento é corroborado por cada sermão que é proferido nos templos e nas casas, em cada reflexão que proclama o senhorio de Cristo e a missão evangelística (leia-se proselitista) da igreja.

Não se pode negar que os mitos tem sua profundidade antropossocial, que constituem uma busca existencial, mas que também comportam a ilusão e alienação nas suas origens. Se a igreja assim tomasse suas narrativas míticas talvez ela deixasse de ser um centro de alienação das massas, mas aí a igreja perderia sua razão de ser, isto é, instituição de adestramento dogmático.

Mailson Cabral.

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Por uma hermenêutica da desconstrução

Não se pode construir uma hermenêutica crítica sobre a religião se não começarmos pela desconstrução das formas dogmáticas de se pensar a fé. Digo isso porque em matéria de religião recebemos uma formação hermenêutica de que devemos olhar o mundo sob a ótica da fé, que devemos ver a nossa existência e o surgimento do cosmos como obras do(s) deus(es) que evidenciam na mente do homem religioso o mundo como uma criação divina.

Nossa interpretação do sagrado, pelo menos a nível de estrutura social, se dá pelo o que recebemos como construção cultural. Templos, rituais, crenças e experiências organizam nossa vida e percepção religiosa. Não é comum parar para se questionar sobre o que legitima nossas crenças, por que elas são o que são, a maneira como se organizam e ditam nossa maneira de agir e de pensar. Geralmente o que se faz é se repetir catecismos e procurar maneiras de reorganiza-los e atualizá-los conforme os tempos vão mudando.

Quando se revolve por algum motivo um aprofundamento crítico a respeito das crenças, a ponto de se desgarrar dos dogmas da fé pondo-os em xeque, é inevitável o conflito cognitivo. Percebe-se que a religião faz parte da nossa construção social da realidade, tais como instituições familiares e políticas são criações nossas. Há alguns que diante disso dão meia volta e preferem viver no conforto da pseudoignorância, outros optam por uma descrença generalizada ou em alguns casos preferem viver uma fé não intimista.

Todavia se o que se pretende encarar a religião numa perspectiva crítica não se pode deixar de encara-la como o que ela é: fenômeno humano. O que só é possível pela desconstrução dos conceitos dos dogmas da fé que recebemos. Só a partir daí podemos fazer uma hermenêutica crítica sobre a religião. Para isso o papel principal da hermenêutica deve ser a desconstrução.

Sei que isso atemorizaria muitos líderes religiosos (principalmente os cristãos), pois acaba com o suposto poder que as narrativas míticas investem aos sacerdotes e as suas doutrinas. Porém tenho sérias dúvidas se esse tipo de hermenêutica um dia se tornará popular, o que me leva a crer que ainda veremos por muito tempo o “bom religioso” como massa de manobra, rebanho a ser guiado ao som do shofar.

Mailson Cabral.

Sobre os manipuladores apalaches da Bíblia

Tenho sérios problemas com os manipuladores apalaches da Bíblia. Explico melhor: os manipuladores de Bíblias são como os manipuladores de serpentes, e não raras vezes são também as próprias serpentes a morderem o calcanhar dos fieis. Não adianta tentar contornar a situação explicando que isso só acontece com aqueles pastores televisivos ou em determinadas denominações. Sempre se forçou a Bíblia a dizer algo que se quer que ela diga. Sempre.

Uma verdadeira hermenêutica da tortura é exercida com os textos bíblicos para que confessem o que a tradição diz – é ela quem dá o sentido do texto pela alegoria. Com alegoria já não importa a intenção do autor, o sentido original do texto ou mesmo o contexto histórico, pois o que vale, em ultima análise, é a magia que se lança sobre o texto. Talvez a única variação que aconteça é que alguns tornam mais refinadas a reflexões alegóricas do que outros para fazê-las mais aceitáveis. De maneira alguma se joga ao grande público os textos despidos das confissões de fé elaboradas pelas tradições.

No fim das contas acaba vencendo quem consegue impor sua interpretação com mais força, assim foi nos cristianismos dos primeiros séculos e tem sido até agora. A verdade se dá pela autoridade que a instituição investe sobre si mesma e credita a Deus suas prerrogativas espirituais mediante a Bíblia.

Por esse motivo vemos tantos discursos de Deus, não é a toa que o Altíssimo tem uma opinião tão volátil: uma hora diz que quer escravos, em outro momento não; uma hora consente com a pobreza, em outra é contra; uma hora quer guerra, em outra, converte-se num pacificador. Pessoalmente acho difícil saber o que o Deus quer a final de contas. Deus continua a ser a milenar máscara ritualística para ocultar vícios e virtudes, o eterno esconderijo de nossas contradições.

Por isso que até quando o mais “caridoso” sacerdote se aproxima e solta alguma coisa sobre o que é a vontade de Deus, do tipo “Porque a Bíblia diz que…” não consigo mais escutá-lo. Automaticamente essas palavras se convertem em minha mente em “Minha racionalização teológica diz que…”. Prefiro seguir por caminhos que não estejam permeados por esta fé. Deus é uma arma carregada na mão desses homens. Cuidado, cuidado redobrado com eles.

Mailson Cabral.

A Bíblia e suas leituras

A inquietação é o elemento capital para a mudança. A partir de uma inquietação surgem as dúvidas, com as dúvidas surgem as perguntas, e quando as perguntas se tornam difíceis de responder pelo senso comum, então surge a pesquisa, a refinação dos métodos de se fazerem as perguntas. Começa a surgir o senso crítico, a necessidade de refletir sobre certos problemas. É como diria Dermeval Saviani: “Algo que não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que preciso saber, eis-me, então, diante de um problema”.

Há alguns anos atrás, na minha não tão distante adolescência, vieram-me com a história que devemos crer incondicionalmente na Bíblia como palavra de Deus, apenas creia e todas as “evidências” que você precisa estarão lá. Bem, não deu para acreditar nisso por muito tempo. O tipo de leitura catequética não visa nenhum desenvolvimento do senso crítico do fiel, apenas a confirmação das formulas dadas a ele e aceitas como verdades.

Depois de várias leituras dos textos bíblicos me vi em sérios apuros para salvar as doutrinas nas quais baseava minha fé, pois para manter a visão de um Deus pessoal e amoroso tinha que no mínimo ignorar que ele era genocida, xenofóbico, homofóbico, machista e que para redimir a humanidade que ele mesmo deixou se perder precisou do sangue do próprio filho. Se ele não fosse tudo isso, pelo menos consentia que os seus seguidores dissessem que ele era.

Para resolver estas questões haja sublimação e abstrações muito criativas nas sistematizações teológicas cristãs. Há de tudo, desde Marcião até pastores manipuladores de serpentes nos Estados Unidos. Cada grupo que encontre a sua maneira correta de ler e interpretar os textos bíblicos, quase sempre bem diferente da interpretação que o seu vizinho faz do mesmo texto.

Encontrar uma unidade mística ou ainda alguma lógica perfeitamente “racional” para resolver os problemas hermenêuticos bíblicos não me parece ser uma boa solução. Nem a repetição dos credos históricos ainda que repaginados não é a melhor saída para quem pretende encarar a Bíblia com alguma seriedade crítica. Parece-me muito mais lúcido encarar os dogmas que estão presentes nas hermenêuticas que se laçam sobre a Bíblia como também os próprios dogmas que estão contidos nela.

Dessa maneira, me é muito mais atraente perguntar diante dos textos sagrados: por quem foram formulados? Como foram formulados? Com que objetivos? No que se baseia este dogma? Etc.

Mas estes tipos de perguntas agridem profundamente quem se apega cegamente aos seus credos religiosos. Não é difícil encontrar pessoas que ainda hoje preferem abrir mão de um olhar mais crítico em nome de uma fé “genuína”.

A fé, quando consciente do que ela é, a crença em um mito, sabe que é aposta, não entra no jogo de poder pela posse da verdade. O problema é que muitos religiosos e líderes religiosos parecem não se dar conta disso, ou pelo menos fingem que não.

Meu conselho é: quebre os seus ídolos da razão religiosa, desmonte as doutrinas e veja do que elas são feitas. Então você verá o quanto elas são demasiadamente humanas. Saiba no que você tem crido e como tem crido, não deixe que os outros decidam por você.

Mailson Cabral.

A interpretação dos textos sagrados

Cada dia estou mais convencido de que a interpretação de texto depende muito mais do que o leitor quer encontrar do que o que o texto e seu(s) autor(es) pretendem comunicar.

Tudo depende da hermenêutica que usamos, e quando se fala de textos sagrados como a Bíblia então, a coisa vira um ringue. De um lado ortodoxos, autoproclamados detentores da reta doutrina, do outro heterodoxos (quer dizer, hereges na boca da ortodoxia), que defendem um discurso diferente do oficial. A história do cristianismo é marcada por esses conflitos, principalmente nas primeiras comunidades cristãs, isso incluiu muitas disputas e alterações teologicamente motivadas pelo sentido “correto” dos textos que hoje compõe o Novo Testamento[1].

Não entrarei no mérito de dizer dentre os vários grupos que compunham as comunidades cristãs dos séculos II e III quem eram os mocinhos ou vilões da história – se é que posso falar nesses termos. O fato é que uma linha de interpretação prevaleceu sobre as demais e se tornou a oficial, silenciando interpretações divergentes. Desde então se tornou comum lutar para defender o discurso “oficial” da cristandade e seus ideais imperialistas. Que importavam os outros credos? Os fins justificam os meios quando o que importa é a manutenção do poder. Em nome de Deus se mata, mente e rouba, mas se é para a honra e glória do seu nome, então não é pecado.

A interpretação da Bíblia dentro da tradição cristã é essencialmente um jogo poder, não de verdades. A tentativa de busca crítica sobre a história e a composição dos textos sagrados sempre gera problemas dentro das igrejas. Talvez seja por isso que sempre se usa “A letra mata fulano” quando alguém faz perguntas que as doutrinas não respondem. Ficar calado é a melhor opção para quem não quer encontrar problemas na sua congregação.

Mailson Cabral.


[1] Para quem quiser uma leitura um pouco mais aprofundada sugiro EHERMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? : quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.