Nós, românticos incontornáveis, tendemos a relatar num texto nossas experiências, vivências – a unicidade de um encontro, de uma transa, de uma arenga, de um estado de tristeza ou estranhamento com o mundo. Tentamos lançar para o papel o que se sente, o que impressiona nossas mentes.

Apesar disso, tenho para mim que há um núcleo rígido que não se abre, que guarda um incomunicável.

Esse espaço não me parece ser acessível ao analista do discurso, ao psicanalista ou mesmo ao neurocientista. Talvez na literatura se encontre a melhor forma de se fazer mostrar essa incapacidade. Lembro-me que Rilke escreve em suas “Cartas a um jovem poeta” sobre como cultivar um sentimento de solidão que gere maturidade e do amor como uma forma de crescimento interior. A meu ver, fala-se nas cartas que compõe esse breve livro sobre uma percepção de essências, ou melhor, da compreensão de coisas que se tornam perceptíveis para nós a partir do modo como enxergamos nossas próprias experiências. Há uma tentativa por parte do autor de fazer comunicar essas impressões e de mostrar as possibilidades de buscá-las sob uma forma de introspecção. Aqui surge uma questão muito difícil: como fazer transmitir algo tão subjetivo e individual para um outro? Porém não é o que com frequência quando queremos externar nossas impressões?

Tentamos fazer as palavras traduzirem o que sentimos e entendemos, mas nem ao menos as palavras são neutras: elas já estão carregadas de sentidos que nos precedem e nos transpassam. Amor, tempo, vida, existência… o que pretendemos dizer com essas coisas? Talvez aquilo para que melhor sirvam seja comunicar o que nos é essencial, mas que sempre nos escapa.

E eu, na demência que me é própria, e que só se agrava com o passar dos anos, quero sempre comunicar aquilo que me escapa. Minha teimosia é incontornável.

Mailson Cabral

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