Arquivo | julho, 2015

Como pode alguém perder a Deus se jamais chegou a possuí-lo?

31 jul

Belíssimo fragmento de uma das cartas do poeta Rainer Maria Rilke. Caso não soubesse que tivesse sido escrito por Rilke, teria roubado para mim. A maneira como ele fala ao jovem Kappus sobre o que entende por Deus é realmente bela. Poderia Deus ser pensado como um devir, enraizado no tempo e na vida?

Se é algo angustiante e perturbador pensar em sua infância, na simplicidade e na quietude que a envolvem, porque o senhor não pode mais acreditar em Deus como o via antes, pergunte a si mesmo, caro senhor Kappus, se perdeu realmente Deus. O que ocorre não é que não chegou jamais a possuí-lo? Pois quando isso teria acontecido? O senhor acredita que uma criança pode sustentá-lo, se os homens só o suportam com esforço, se seu peso esmaga os anciãos? Acredita que alguém, caso realmente o possua, pode perdê-lo como se perde uma pedrinha qualquer, ou não percebe também que quem o tivesse só poderia ser perdido por ele? – Contudo, se o senhor reconhece que ele não se encontrava em sua infância, nem antes, se intui que Cristo foi iludido por sua nostalgia e Maomé foi enganado por seu orgulho – e se o senhor sente com temor que Deus também não existe agora, neste momento em que falamos dele -, então de que lhe vale sentir falta dele, que nunca existiu, como de algo passado, e procurá-lo como se o tivesse perdido?

Por que não pensar que ele é aquele que está por vir, aquele que se encontra diante da eternidade, o futuro, o derradeiro fruto de uma árvore cujas folhas somos nós? O que o impede de projetar seu nascimento nos tempos por vir, de modo a viver sua vida como um dia doloroso e belo na história de uma grande gravidez? O senhor não percebe como tudo o que acontece é sempre de novo um começo? E não poderia ser o começo dele, já que todo início é sempre tão belo? Se ele é o mais perfeito, o que há de pequeno não tem que estar antes dele, de maneira que ele possa se escolher a partir da plenitude e da superabundância? Ele não tem de ser o último, a fim de abarcar tudo? E qual sentido teríamos nós se aquele pelo qual ansiamos já tivesse existido?[1]

[1] RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2014. P. 58-59.