Como fica a questão do conhecimento em religião? O que posso saber, como e em quais condições a respeito dela? Como fica a religião enquanto objeto de estudo?

Iniciei neste último mês de Março meus estudos no mestrado em Ciências da Religião na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Começo agora a estudar mais aprofundadamente esse meio objeto de amor e ódio, fascínio e assombro que é a religião. Depois de um breve voo nesse último mês sobre algumas concepções teóricas do que seja a religião – ou o fenômeno religioso, como alguns autores preferem falar –, as correntes de pensamento que se dedicam a refletir sobre isso e como as cosmologias religiosas organizam suas concepções de mundo a respeito da vida, do homem, da morte etc., confesso que descobri que meu guarda-chuva teórico estava inadequado para apreender o fenômeno religioso em suas diferentes interfaces, estrutura e conjectura. Se de fato pretendo ser mesmo um bom cientista da religião – e não mais um bobo com um diploma de mestrado da mão – é necessário refletir essas questões com empenho e rigor. Não posso me furtar disso. E dentre os problemas mais espinhosos a se refletir nesse campo é a questão epistemológica.

Nesse sentido, penso que precisamos buscar de forma mais substancial subsídios para pensar a questão do problema epistemológico em Ciências da Religião. Carecemos ainda desse tipo de aproximação feita de maneira mais incisiva. Trata-se de saber aqui se as Ciências da Religião possui uma metodologia própria ou não. Senão tiver, como posso considera-la um campo disciplinar? Dizer que se trata de uma disciplina plurimetodológica, longe de resolver a questão, só aumenta o seu grau de problematização: se é plurimetodológica, qual a escala para se medir isso? Que critérios serão tomados como a priori para tal seleção de métodos? Isso para não entrar na briga Ciências da Religião versus Ciência da Religião. É importante lembrar que mais do que uma simples nomenclatura se envolve talvez um problema mais profundo, de como seja concebido o objeto de pesquisa desse campo pelos pesquisadores: se a religião deve ser abordada de maneira essencialista (Otto/ Croatto/Eliade) ou como produto da cultura, isto é, totalmente construída (perspectiva nominalista)? É difícil escolher um posicionamento entre os dois, sobre que lado tomar parte, ou mesmo a tentativa de uma terceira via, por meio de uma epistemologia das controvérsias – tentar compreender essas concepções de religião ao mesmo tempo como antagônicas e complementares.

Em diálogo com alguns professores e colegas do mestrado e doutorado da Unicap pude perceber que a concentração das pesquisas no nosso campo de estudo se concentram muito mais sobre o fenômeno religioso e seus condicionantes sociais, antropológicos, históricos e teológicos do que sobre método e metodologia em nosso campo. Encontramos espalhados pelo país diferentes vertentes epistemológicas, mas para mim ainda resta saber com clareza se o que chamamos de Ciência(s) da Religião é a mesma coisa para todos e em todos os programas. Ou então se não estamos a fazer alguma outra ciência das humanidades sob essa capa ou em alguns casos a fazer uma teologia laica mesmo. Não me deterei na questão do distanciamento e aproximação entre teologia e ciência da religião, mas não custa nada lembrar que Teologia e Ciências da Religião constituem uma área autônoma junto a Capes/Mec e que possuem também uma associação de pesquisa interligada (ANPTECRE).

A meu ver, não há problemas das Ciências da Religião manter relações metodológicas com outras disciplinas, muito pelo contrário, é interessante para nós uma dialógica inter e transdisciplinar na construção de uma cultura epistemológica na área. A questão é se as Ciências da Religião tem ou não seu ponto de autorreferência, senão ela é uma terra de ninguém, um ponto de conveniência para locar outras disciplinas que estudam o fenômeno religioso.

As lutas em torno o estatuto epistemológico das Ciências da Religião no Brasil estão no seu limiar, ainda será campo de muitos embates, mesmo com a consolidação dos programas de pós-graduação na área nos últimos anos. É sabido que a discussão e problematização sobre o tema em terras tupiniquins até o momento é bem insipiente (apesar de contar com obras como o “Compêndio de ciência da religião” Organizado por Frank Usarski e João Décio Passos – Paulinas/ Paulus, 2013 –  e tantos outros livros organizados tanto pelo Faustino Teixeira como pelo Frank Usarski) e que ainda há muito o que ser explorado na área.

Uma discussão em busca dos fundamentos epistemológicos do que chamamos de Ciência(s) da Religião precisa ser bem feita –  de maneira ampla e exaustiva no Brasil. Nesse sentido, espero poder contribuir para o enriquecimento dessa discussão nessa minha jornada de estudos que se iniciou oficialmente no último mês de Março na Unicap. Refletir e produzir conhecimento sob o prisma de uma epistemologia das controvérsias, complexa e transdisciplinar as Ciências da Religião é o que pretendo. O que não será nada fácil, diga-se de passagem. E é justamente isso que torna tudo bem mais instigante.

Mailson Cabral

Anúncios

2 comentários sobre “Ciências da Religião – problemas epistemológicos

  1. Siga mesmo com os estudos, pois esse assunto da epistemologia da ciência(s) da(s) religião(ões) é abordado em sala só em matérias introdutórias, já resolvendo – por assim dizer – que o estudo é do fenômeno religioso que se dá no ser humano, e como um objeto humano é abordado por perspectivas da antropologia, sociologia, ética, estética, história, filosofia, psicologia, e por aí vai. O Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro (que você deve conhecer) é quem mais ter argumentos científicos para delimitar o que é e o que não é ciência da religião. Ele separa bem a questão da teologia (e claro, seus dogmas) do estudo sério da religião, mas ainda assim vejo bastante a ideia do “complexo” de Edgar Morin, do qual seria impossível – e improdutivo – uma separação das áreas, ou do que entendi que você quer fazer: uma delimitação mais cirúrgica da ciência da religião.

    1. Então Thiago, ainda há muito a ser explorado no campo epistemológico da(s) Ciência(s) da Religião. A questão que defendo é problematizar mais profundamente os pressupostos teórico-metodológicos que tomamos como fundamentos da disciplina. Já que você citou Morin, vou me valer de Pascal (que é um dos filósofos de Morin) pra colocar meu ponto de vista sobre delimitação: “Sendo todas as coisas causadas e causadoras, ajudadas e ajudantes, mediatas e imediatas, e todas elas mantidas por um elo natural e insensível, que interliga as mais distantes e as mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como conhecer o todo sem conhecer, particularmente, as partes…” (apud MORIN, 2009: 26).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s