O teólogo ateu

29 abr

Um antigo texto do amigo Geraldo de Araujo, teólogo ateu, que eu tinha encomendado há um bom tempo (quase um ano!), mas só agora publico. Pedi a ele que escrevesse o que a palavra o a ideia “Deus” ainda lhe representava. Ele me saiu com este belo texto, digo de ser proferido numa aula de introdução a teologia.

“Blasfema são as palavras de quem afirma o que afirmo, mormente em caso de se ter vivido como religioso por pouco mais da metade de sua vida. Contudo, não são palavras propositadamente ofensivas, escarnecedoras. São, simplesmente, a expressão pálida de meus devaneios, de minha liberdade de expressão, de minha não aceitação e resignação, do resquício do jeito protestante de ser. Hoje, percebo o quanto Deus evoluiu durante minha vida. Como ele deixou de ser criança e passou a ser um adolescente implicante. Até que, na fase adulta, julguei tê-lo encontrado de forma salvífica e dele me considerei um servo, um escravo. Porém, toda a estrutura erguida em torno do onipotente Deus foi-se esvaindo gradativamente ao ponto de, no fim, tudo mais que eu tinha era nada menos do que eu mesmo.

Deus, virou pó, junto com a estrutura (!). Se ele existe ou não existe isso independe da minha [des]crença. Nada existe ou deixa de existir simplesmente por que eu creio ou descreio. Mas, em existindo ele, haverá de me perdoar por minhas loucuras, pois, sendo conhecedor de todas as coisas, conhece, certamente, meu coração e sabe que dizer e não dizer estas palavras não importam: pois, independentemente de serem expressas por meus lábios, estão lá, no mais íntimo do meu ser. E se me perguntarem o que ele é pra mim, agora, afirmo: nada menos que uma palavra utilizada por pessoas religiosas com vistas a apresentar um ser que difere do comum e que é merecedor de uma devoção além da que é dedicada, quando é, aos humanos. Por outro lado, em não existindo ele, bem, em não existindo ele… não há perdão a ser concedido, não há arrependimento, não há justificação. A morte será a senhora diante da qual definitivamente todos nos prostraremos e beijaremos sua gélida mão sem nenhuma perspectiva de ressurreição, reencarnação, etc. No fundo, nada do que falei prova ou “desprova” coisa alguma, apenas descreve palidamente um pouco do que há em mim.”

 

Por Geraldo de Araujo

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Uma resposta to “O teólogo ateu”

  1. Larissa maio 29, 2015 às 3:22 pm #

    Belo Texto. Como faço para enviar por e-mail?

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