Arquivo | abril, 2015

Ciências da Religião – problemas epistemológicos

30 abr

Como fica a questão do conhecimento em religião? O que posso saber, como e em quais condições a respeito dela? Como fica a religião enquanto objeto de estudo?

Iniciei neste último mês de Março meus estudos no mestrado em Ciências da Religião na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Começo agora a estudar mais aprofundadamente esse meio objeto de amor e ódio, fascínio e assombro que é a religião. Depois de um breve voo nesse último mês sobre algumas concepções teóricas do que seja a religião – ou o fenômeno religioso, como alguns autores preferem falar –, as correntes de pensamento que se dedicam a refletir sobre isso e como as cosmologias religiosas organizam suas concepções de mundo a respeito da vida, do homem, da morte etc., confesso que descobri que meu guarda-chuva teórico estava inadequado para apreender o fenômeno religioso em suas diferentes interfaces, estrutura e conjectura. Se de fato pretendo ser mesmo um bom cientista da religião – e não mais um bobo com um diploma de mestrado da mão – é necessário refletir essas questões com empenho e rigor. Não posso me furtar disso. E dentre os problemas mais espinhosos a se refletir nesse campo é a questão epistemológica.

Nesse sentido, penso que precisamos buscar de forma mais substancial subsídios para pensar a questão do problema epistemológico em Ciências da Religião. Carecemos ainda desse tipo de aproximação feita de maneira mais incisiva. Trata-se de saber aqui se as Ciências da Religião possui uma metodologia própria ou não. Senão tiver, como posso considera-la um campo disciplinar? Dizer que se trata de uma disciplina plurimetodológica, longe de resolver a questão, só aumenta o seu grau de problematização: se é plurimetodológica, qual a escala para se medir isso? Que critérios serão tomados como a priori para tal seleção de métodos? Isso para não entrar na briga Ciências da Religião versus Ciência da Religião. É importante lembrar que mais do que uma simples nomenclatura se envolve talvez um problema mais profundo, de como seja concebido o objeto de pesquisa desse campo pelos pesquisadores: se a religião deve ser abordada de maneira essencialista (Otto/ Croatto/Eliade) ou como produto da cultura, isto é, totalmente construída (perspectiva nominalista)? É difícil escolher um posicionamento entre os dois, sobre que lado tomar parte, ou mesmo a tentativa de uma terceira via, por meio de uma epistemologia das controvérsias – tentar compreender essas concepções de religião ao mesmo tempo como antagônicas e complementares.

Em diálogo com alguns professores e colegas do mestrado e doutorado da Unicap pude perceber que a concentração das pesquisas no nosso campo de estudo se concentram muito mais sobre o fenômeno religioso e seus condicionantes sociais, antropológicos, históricos e teológicos do que sobre método e metodologia em nosso campo. Encontramos espalhados pelo país diferentes vertentes epistemológicas, mas para mim ainda resta saber com clareza se o que chamamos de Ciência(s) da Religião é a mesma coisa para todos e em todos os programas. Ou então se não estamos a fazer alguma outra ciência das humanidades sob essa capa ou em alguns casos a fazer uma teologia laica mesmo. Não me deterei na questão do distanciamento e aproximação entre teologia e ciência da religião, mas não custa nada lembrar que Teologia e Ciências da Religião constituem uma área autônoma junto a Capes/Mec e que possuem também uma associação de pesquisa interligada (ANPTECRE).

A meu ver, não há problemas das Ciências da Religião manter relações metodológicas com outras disciplinas, muito pelo contrário, é interessante para nós uma dialógica inter e transdisciplinar na construção de uma cultura epistemológica na área. A questão é se as Ciências da Religião tem ou não seu ponto de autorreferência, senão ela é uma terra de ninguém, um ponto de conveniência para locar outras disciplinas que estudam o fenômeno religioso.

As lutas em torno o estatuto epistemológico das Ciências da Religião no Brasil estão no seu limiar, ainda será campo de muitos embates, mesmo com a consolidação dos programas de pós-graduação na área nos últimos anos. É sabido que a discussão e problematização sobre o tema em terras tupiniquins até o momento é bem insipiente (apesar de contar com obras como o “Compêndio de ciência da religião” Organizado por Frank Usarski e João Décio Passos – Paulinas/ Paulus, 2013 –  e tantos outros livros organizados tanto pelo Faustino Teixeira como pelo Frank Usarski) e que ainda há muito o que ser explorado na área.

Uma discussão em busca dos fundamentos epistemológicos do que chamamos de Ciência(s) da Religião precisa ser bem feita –  de maneira ampla e exaustiva no Brasil. Nesse sentido, espero poder contribuir para o enriquecimento dessa discussão nessa minha jornada de estudos que se iniciou oficialmente no último mês de Março na Unicap. Refletir e produzir conhecimento sob o prisma de uma epistemologia das controvérsias, complexa e transdisciplinar as Ciências da Religião é o que pretendo. O que não será nada fácil, diga-se de passagem. E é justamente isso que torna tudo bem mais instigante.

Mailson Cabral

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O teólogo ateu

29 abr

Um antigo texto do amigo Geraldo de Araujo, teólogo ateu, que eu tinha encomendado há um bom tempo (quase um ano!), mas só agora publico. Pedi a ele que escrevesse o que a palavra o a ideia “Deus” ainda lhe representava. Ele me saiu com este belo texto, digo de ser proferido numa aula de introdução a teologia.

“Blasfema são as palavras de quem afirma o que afirmo, mormente em caso de se ter vivido como religioso por pouco mais da metade de sua vida. Contudo, não são palavras propositadamente ofensivas, escarnecedoras. São, simplesmente, a expressão pálida de meus devaneios, de minha liberdade de expressão, de minha não aceitação e resignação, do resquício do jeito protestante de ser. Hoje, percebo o quanto Deus evoluiu durante minha vida. Como ele deixou de ser criança e passou a ser um adolescente implicante. Até que, na fase adulta, julguei tê-lo encontrado de forma salvífica e dele me considerei um servo, um escravo. Porém, toda a estrutura erguida em torno do onipotente Deus foi-se esvaindo gradativamente ao ponto de, no fim, tudo mais que eu tinha era nada menos do que eu mesmo.

Deus, virou pó, junto com a estrutura (!). Se ele existe ou não existe isso independe da minha [des]crença. Nada existe ou deixa de existir simplesmente por que eu creio ou descreio. Mas, em existindo ele, haverá de me perdoar por minhas loucuras, pois, sendo conhecedor de todas as coisas, conhece, certamente, meu coração e sabe que dizer e não dizer estas palavras não importam: pois, independentemente de serem expressas por meus lábios, estão lá, no mais íntimo do meu ser. E se me perguntarem o que ele é pra mim, agora, afirmo: nada menos que uma palavra utilizada por pessoas religiosas com vistas a apresentar um ser que difere do comum e que é merecedor de uma devoção além da que é dedicada, quando é, aos humanos. Por outro lado, em não existindo ele, bem, em não existindo ele… não há perdão a ser concedido, não há arrependimento, não há justificação. A morte será a senhora diante da qual definitivamente todos nos prostraremos e beijaremos sua gélida mão sem nenhuma perspectiva de ressurreição, reencarnação, etc. No fundo, nada do que falei prova ou “desprova” coisa alguma, apenas descreve palidamente um pouco do que há em mim.”

 

Por Geraldo de Araujo