Arquivo | março, 2015
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Religião e mística – entrevista com Jimmy Sudário Cabral

24 mar

Publicado originalmente no site da TV Horizonte

Vídeo

Slavoj Zizek fala sobre o cristianismo

5 mar

Este vídeo é a última parte do filme-documentário The pervert’s guide to ideology do filósofo esloveno Slavoj Zizek  – infelizmente não encontrei uma versão com legendas. No vídeo, Zizek argumenta que a grandeza do livro de Jó não consiste no fato de Jó declarar sua inocência, mas insistir na falta de sentido de suas calamidades. Para Zizek, a grande “sacada” de Jó é perceber que Deus não era justo ou injusto, mas impotente e isso se estende na paixão de Cristo. Numa leitura anacrônica radical do livro de Jó – como ele próprio afirma em seu livro A monstruosidade de Cristo (2014: 78-79) – ele afirma: “Jó previu o sofrimento futuro de Deus – ‘Hoje sou eu, amanhã será seu próprio filho, e não haverá ninguém para intervir por ele. O vês agora em mim é a prefiguração de sua própria Paixão!”

Ainda em outra parte da mesma obra faz uma reflexão um tanto provocativa sobre a  morte desse Deus transcendente:

“Quando somos confrontados com um evento como o Holocausto, ou a morte de milhões no congo nos últimos anos, não seria obsceno dizer que essas manchas possuem um significado mais profundo, pois contribuem para a harmonia de um Todo? Existe um Todo que pode ser justificado teologicamente, e assim redimir ou suprassumir um evento como o Holocausto? A morte de Cristo na cruz, desse modo, significa que deveríamos  nos livrar imediatamente da noção de Deus como um cuidador transcendente que garante o resultado feliz de todos os atos, a garantia da teologia histórica – a morte de Cristo na cruz é a morte desse Deus, ela repete a posição de Jó, ela recusa qualquer “significado mais profundo” que ofusque a realidade brutal das catástrofes históricas.” (2014: 77)

Ficam aqui registradas essas provocações zizekianas!

 

ZIZEK, Slavoj. A monstruosidade de Cristo: paradoxo ou dialética? São Paulo: Três estrelas, 2014.

A incógnita do medo

4 mar

Teu golpe

Teu galope

 

Lambe a terra

Quebra a pedra

Fere a fera

 

Teu verso

Teu cetro

 

Esmaga

A noite escura

A serpente nua

A água turva

 

No teu golpe

No teu galope

 

Cravas nas trevas

Cavaleiro

Um nome cruel

Um suspiro derradeiro

 

A Incógnita do Medo.

 

Mailson Cabral

o cavaleiro

O que é um agnóstico?

1 mar

Essa é uma tradução livre que fiz de um dos textos do Bertrand Russell em que ele explica o que é um agnóstico e no que consiste a sua posição agnóstica a respeito da religião. Esse artigo do Russell em formato de perguntas e respostas apareceu pela primeira vez no Cowles Magazine em 1957. Selecionei apenas alguns trechos do texto para a tradução que melhor respondiam aos questionamentos mais gerais a respeito das diferenças entre ateísmo e agnosticismo e em que acredita um agnóstico ( o texto completo tem oito páginas e pode ser conferido em inglês aqui).

O que é um agnóstico?

Um agnóstico pensa ser impossível conhecer a verdade em questões como Deus e vida futura com que o cristianismo e outras religiões estão preocupadas. Ou, se não for possível, pelo menos é impossível até o presente momento.

 

São os agnósticos ateus?

Não. Um ateísta, como um cristão, defende que nós podemos saber se existe ou não um Deus. O cristão defende que nós podemos saber que existe um Deus; o ateu, que nós podemos saber que não existe. O agnóstico suspende o julgamento, dizendo que não há provas para afirmar ou negar. Ao mesmo tempo, um agnóstico pode sustentar que a existência de Deus, embora não impossível, é muito improvável; ele pode até sustentar que isso é tão improvável que não tem valor considerar isso na prática. Neste caso, ele não está muito distante do ateísmo. Sua atitude pode ser a que um filósofo cuidadoso teria para com os deuses da Grécia Antiga. Se me pedissem para provar que Zeus, Poseidon, hera e o resto dos deuses do Olimpo não existem, eu seria um perdedor em encontrar argumentos conclusivos. Um agnóstico pode pensar que o Deus cristão é tão improvável quanto os do Olimpo; nesse caso, ele é, por propósitos práticos, um com os ateístas.

 

Você considera todas as religiões como formas de supertição ou dogmas? Qual das religiões existentes você mais respeita, e por quê?

Todas as religiões organizadas que tem dominado grandes populações tem envolvido uma grande ou pequena quantidade de dogmas, mas “religião” é uma palavra que o significado não é muito definitivo. O confucionismo, por exemplo, pode ser chamado de religião, embora ele não envolva dogmas. E em algumas formas de cristianismo liberal, o elemento do dogma é reduzido ao mínimo.

Das grandes religiões da história, eu prefiro o Budismo, especialmente em suas primeiras formas, porque ele tem tido o menor elemento de perseguição.

 

Agnósticos pensam que ciência e religião são impossíveis de se reconciliar?

A resposta está sobre o que se querer dizer com religião. Se isso significa meramente um sistema de éticas, ela pode ser reconciliada com a ciência. Se isso significa um sistema de dogmas, considerando como inquestionavelmente verdadeiro, é incompatível com o espírito científico, que recusa aceitar questão de fato sem evidência, e também sustenta que a certeza completa é raramente possível.

 

Qual tipo de evidência poderia convencê-lo que Deus existe?

Eu penso que se escutasse uma voz do céu predizendo tudo que iria acontecer comigo durante as próximas vinte e quatro horas, incluindo eventos que iriam parecer altamente improváveis, e se todos esses eventos então produzidos acontecessem, eu poderia talvez ser convencido pelo menos da existência de alguma inteligência super-humana. Eu posso imaginar outra evidência do mesmo tipo que poderia convencer-me, mas por enquanto como sei, nenhuma evidência existe.

 

 

 

RUSSEL, Bertrand. The basic writings of Bertrand Russell. New York: Routledge, 2009. p. 557-567.