Respondendo a alguns questionamentos sobre o texto “Da minha imprestabilidade para cultos e orações”

Na imensidão oceânica que se tornou a internet – e este blog é apenas um singelo barco a remo nela – é sempre bom quando encontramos alguém que levanta questionamentos instigantes sobre o que escrevemos. Recebi hoje via facebook do amigo Geraldo Araújo, teólogo ateu, alguns apontamentos críticos sobre meu último texto “Da minha incredulidade para cultos e orações” que faço questão de reproduzir logo abaixo:

Alguns questionamentos:

  1. Se é uma “necessidade humana” porque você acha, se é que entendi corretamente, que você está fora dessa carência?
  2. Essa sua busca por compreensão do que chamamos de fenômeno religioso me faz lembrar uma fala do Gilbraz naquele vídeo que você me enviou (conferir aqui). Lembro que ele falou do descrédito das instituições. Contudo, por outro lado, a espiritualidade está em alta. Pessoas abandonam o templo, mas adoram nos lugares aparentemente menos “sagrados”.

Em outras palavras, o que quero dizer, é que a secularização, neste caso, não é um contraponto à religiosidade. Na minha opinião, a secularização é (talvez apenas parcialmente) um motor à religiosidade não institucional. Digo isso porque em seu texto há um “apesar da crescente secularização do mundo”.

  1. Pra pensarmos: será que esse “insisto nela, sempre estou a me debater ‘com’ ela e contra ela” não seria o mesmo que “essa necessidade humana de autotranscendência” só que, neste caso, fazendo as coisas passarem pelo crivo da racionalidade?

 

Ok, vamos responder ponto a ponto:

  1. Quando digo no texto que há uma necessidade humana de autotranscedência não quero fazer confundir isso com a religião. A autotranscedência pode ser buscada na religião, assim como nas artes, na política e nas drogas. Obviamente que cada uma trará experiências diferentes, mas ainda sim se tem nessa busca a mesma finalidade de se autotranscender.
    Não acho que me situe fora dessa necessidade, a questão é que não mais a procuro pelos meios religiosos, na posição de um fiel.
  2. Quando falo da secularização (termo tão demonizado pelos crentes) é justamente nesse sentido do descrédito da religião institucional como também na virada cultural que a modernidade nos lançou a respeito das nossas crenças e ideias religiosas. As concepções do que seja o sagrado dentro da vida privada como em escala social parece estar em deslocamento, é nesse sentido que Jose Casanova, um sociólogo das religiões, vai até falar de uma concepção emergente de “sagrado secular”.
  3. Aqui não saberia dar uma resposta objetiva. Sim, admito que possa ter refletido nisso uma busca por autotranscendência, mas também digo que se todo o entendimento racional que se busco sobre a questão é essa busca, apenas com os fios invertidos como você colocou, penso que sou o pior dos místicos. Estaria mais para um “Mr. M” das religiões.

Termino dizendo o mesmo que disse a outro amigo que sugeriu que há algo de “espiritualidade” nessa minha busca: se do pó e das cinzas de estrelas apagadas surgir alguma coisa que a gente possa chamar de espiritualidade… Talvez um dia venha a emergir desse blog um ogro terrível ou um espírito de luz. De preferência alguma cria da copulação violenta desses dois!

 

Mailson Cabral

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Da minha imprestabilidade para cultos e orações

Já faz tempo que me tornei imprestável para cultos e orações, coisas que outrora animavam minha fé. Hoje essas coisas se tornaram indiferentes para mim, não me trazem nenhum tipo de alívio psicológico ou alucinação narcótica. Até entendo essa necessidade humana de autotranscedência que se busca na religião, um senso de completude e comunhão que ela traz, uma libertação de alguma parte de nossa personalidade que nos é pesada ou difícil de encarar. O que não posso mais aceitar é entrar nesse jogo de se por de joelhos, de se lançar ao abismo com a crença de que mesmo passando pelas mais densas trevas cairei nos braços de deus.

Minha descrença comeu todos os elementos que na minha adolescência marcaram minhas formas de compreender a religião: bíblia, oração, templo, deus, serviço, teologia… uma enchente levou todos os móveis do meu pequeno mundo cristão e esse mundo em si.  O que sobrou foi uma vontade de entender como as crenças e experiências religiosas funcionam, como são produzidas e porque persistem apesar da crescente secularização do mundo.

Trata-se de uma virada antropológica: de uma teodicéia; meu interesse se moveu para uma antropodicéia. Talvez por isso eu tenha me tornado mais um homem de tavernas do que de templos. Às vezes penso se não faria mais sentido simplesmente esquecer toda essa questão em torno da religiosidade e migrar para qualquer outro campo do conhecimento que não tivesse mais relação com isso. Porém insisto nela, sempre estou a me debater com ela e contra ela. Tenho para mim que seja algum tipo de possessão, uma ideia que possuo e que me possui na direção de tentar entender o que seja a religião.

E nessa luta vou caminhando, lendo, refletindo – e vertendo o sangue de cada texto, de cada ideia.

 

Mailson Cabral

Sobre um tipo ideal de homem

“Na falta de um modelo, um tipo de homem seria meu ideal. Seu equilíbrio se modifica, se destrói e se reformula no campo de batalha das contradições. Ele não quer deixar o terreno das contradições. Não quer expulsar o negativo do mundo, mas participar de suas energias. Não quer destruir o positivo, mas resistir à pretificação. Não quer nem escapar ao real nem aceitá-lo, mas gostaria que o real fosse transformado e talvez espere que este real seja um dia transfigurado. Esforça-se para tornar criativa em si próprio a luta dos contrários. Tragédia, comédia, epopeia e farsa estão para ele indissoluvelmente presentes a cada instante. Ele se sabe enfermo, particular, mas o que o comove é a universal miséria de cada um e não a solidão. A solidão é a enxaqueca do mundo burguês. Este homem não odeia nada nem ninguém. Suas duas paixões são o amor e a curiosidade é uma energia sem fronteiras. Seus amores não se excluem nem se tornam insípidos. Este homem adulto é, ao mesmo tempo, muito velho, criança e adolescente. Está sempre em formação. Obstina-se em procurar o além.”

 

MORIN, Edgar. Em busca dos fundamentos perdidos: textos sobre o marxismo. Porto alegre: Sulina, 2010. p. 68-69.

Joy Division – Disorder

 

Ao escutar essa música do Joy Division é impossível não lembrar do poema “A música” de Charles Baudelaire. É como se as canções do Joy Division sintetizassem o espírito do seu tempo.  Angústia, depressão e um certo niilismo implacável  estão presentes nelas, o que lembra muito os poetas malditos como Rimbaud e Baudelaire.

Meu conselho é: escutar e se contaminar!

 

A música, por vezes, me abraça qual mar

            Rumo a branca estrela,

Sob um teto de bruma ou éter a brilhar,

            Eu coloco à vela;

 

De peito para frente e de pulmões inflados

            Qual se fosse uma tela,

Vou das ondas galgando o dorso encapelado

            Que a noite vela;

 

Em mim sinto vibrar todas essas paixões

            De nau em cataclismo,

O bom vento, a borrasca e suas convulsões

 

            Sobre imenso abismo

Me embalam. Outras vezes, calmo, grande espelho

            Do meu desespero!

 

LXIX – A música,  Charles Baudelaire