Como assim Neo Ateus?

Sempre discuto com a minha amiga Raquel Melo sobre essas polêmicas de fundamentalistas que vemos cotidianamente na TV e internet. O interessante é que, em nossas conversas o que gostaríamos de muitos religiosos seria só um pouquinho de coerência ética que não fosse essa mistura bizarra de leis veterotestamentárias com o consumismo capitalista que temos em quase tudo que leva o nome de Cristão. Até onde conseguimos perceber praticamente não há uma ética orientada para o respeito à alteridade que ultrapasse os próprios conceitos dogmáticos nos sistemas ideológicos das religiões institucionalizadas. E na nossa realidade brasileira vale lembrar a cara desse sistema: branco, cristão, heterossexual e de classe média.

Ora, nesse contexto, uma das disputas mais inúteis que se faz é a do teísmo versus ateísmo, pois a razão assume um status dogmático para ambos os lados. Cada qual quer provar a racionalidade de seus argumentos que provam com precisão seus pontos de vista. Particularmente me afasto desse tipo de retórica, pois ela assume um caráter ideológico que só reproduz cegueira e ilusão, uma vez que não leva em consideração o caráter desracionalizável da razão, ou seja, nenhum dos dois lados está disposto a renunciar à existência daquilo que colocam como premissas, o que os torna incapazes de fazer a sua autocrítica.

Mas alto lá! Há exceções. Vez por outra é possível encontrar um indivíduo crente ou não crente num além ou em deidades com que considera a possibilidade do erro e da ilusão inseridos nas suas opiniões. É por isso que gosto de conversar com a Raquel Melo, ateia convicta, é justamente com ela uma das pessoas com quem melhor consigo discutir assuntos ligados à religião. E em uma de nossas últimas conversas, o tema que ela me trouxe foi Neo Ateísmo. Pois bem, ela me deu uma opinião sobre o tema, um desabafo na verdade, que faço questão de reproduzir aqui:

“Todo mundo acredita em deus, até mesmo você, ateu! Ou você acha que o Big Bang aconteceu sozinho? É pelas respostas que o ser humano não tem que ele ainda busca explicar através de deus! Ainda!” Viver numa sociedade teísta não é fácil para ateus que têm que constantemente pegar bus e dar atenção para aquele que pede “um minuto para falar do Senhor” ou mesmo em vias públicas ter alguém pedindo para “se arrepender dos pecados, porque senão quando você morrer vai pra um lugar muito ruim”. Ninguém que morreu voltou à vida pra saber. É por isso. É nesse desconhecido que os teístas se baseiam para a criação do estilo de vida – paradoxalmente, é a morte. E se eles se baseiam em crenças para medir se uma pessoa é boa ou não é a fé em um deus, é de uma pequenez tamanha, praticar o bem só por ter medo do inferno.

Um dia desses espantei-me ao descobrir uma palavra muito usada por teístas pejorativamente ao se referirem aos que não creem em deus: Neo ateus.

Existe lá uma “nova maneira de não se acreditar em um deus”? Porque é isso que faz de uma pessoa ateia – a não crença em deus. Não é uma religião, não é um estilo de vida. Porque uma pessoa é ateia, sequer significa que ela seja estudioso, cientista… apenas não acredita em deus. Mas isso é muito difícil de aceitar-se num lugar onde a moeda, a fala, o sotaque, as comemorações, os feriados, as músicas, as comidas típicas, tudo é culturalmente ligado à alguma religião.

Não há respeito com os ateus. É simplesmente um “ato de rebeldia”. E tentam contestar de todas as formas, seja com sorrisos ou gritos. Não me parecem que estão tentando fazer com que eu acredite no deus delas, mas nelas. É assim que eu vejo esse ego elevado em enfiar espadas em nome de um ser superior – estão sendo usadas por um ser superior, então se acham importantes. Mas não cabe a mim julgá-las, pois isso elas já fazem comigo, e nunca devolvo na mesma moeda. É falta de educação.

Pode-se até matar em nome de deus, mas crime mesmo é ser ateu.

 

Mailson Cabral

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Um ano de Templo e Taverna!

Pois é, hoje o meu blog Templo e Taverna completa um ano de aniversário. Para ser sincero, nem parece que comecei a escrever a todo esse tempo. Quantas mudanças, idas e vindas, caminhos e descaminhos tomei nesse período.

Inicialmente o blog tinha apenas o intuito de exorcizar alguns demônios dos templos que vagavam na escuridão telúrica do meu cérebro/mente, porém com o tempo fui me interessando por outros campos do saber para além de uma crítica à teologia como a transdisciplinaridade, teoria do pensamento complexo, filosofia da educação, fenomenologia da religião, enfim, hoje o blog é pequeno mosaico de todas essas coisas.

Por meio dessa página pude conhecer e fazer bastantes contatos com gente que pensa diferente quando o assunto é religião. Posso dizer que isto me permitiu lançar um olhar para além do binômio teísmo/ateísmo que normalmente graça os debates sobre o sentido, função e origens das crenças. Há muito que se estudar quando o assunto é o homem e suas experiências religiosas e como podemos interpretar isso por viés que tome, sem confessionalismos, um olhar transdisciplinar para compreender o fenômeno por meio das contribuições tanto das ciências humanas como cognitivas e naturais.

Aos leitores eu só tenho a agradecer, pois escrever é necessariamente “dar a cara a tapa”, uma vez que lançada uma opinião ela está aí para ser discutida, criticada, superada é precisamente isso que faz amadurecer um autor. E em tempos de muita informação e pouco conteúdo que a gente vê circulando na montanha de dados que é a web espero que você possa encontrar algo de útil por aqui.

Abraços!

Mailson Cabral