Arquivo | setembro, 2014

Slavoj Zizek – para uma teologia materialista

28 set

Neste final de semestre estou lendo um livro um tanto desafiador: A monstruosidade de Cristo. Trata-se de um diálogo entre o filósofo marxista e popstar, Slavoj Zizek e o teólogo-mor da ortodoxia radical, John Milbank. Eles discutem o significado do cristianismo e de Jesus para a história e futuro do homem (devo admitir que haja uma certa dose de eurocentrismo nisso). Para tal, eles voltam a Hegel a fim de repensar a seguinte questão: De que maneira o teológico e o material podem se unir para consolidar uma resistência ao niilismo capitalista? É uma discussão um tanto interessante – muito mais pela argumentação de Zizek do que a de Milbank – pois, engloba teologia, filosofia e política, uma vez que o pensamento hegeliano perpassa por essas temáticas.

Trata-se de uma leitura densa e volumosa (431 páginas!), mas o desafio vale a pena. Não se trata de um debate ao estilo Dawkins versus McGrath, que está mais para um exercício de má interpretação ideológica das premissas defendidas do que um debate real, mas de uma crítica intelectual a própria noção moderna de razão e de seu caráter desracionalizável, incapaz de criticar a própria razão.

Aos interessados, fica aqui um trecho do livro aonde Zizek desconstrói em poucas linhas a doutrina trinitariana da ortodoxia cristã:

Deus é uma Pessoa precisamente e apenas em seu modo de manifestação. A lição da Encarnação cristã (Deus torna-se homem) é esta: falar de Pessoas divinas fora da Encarnação não faz sentido; na melhor das hipóteses, é um resto de politeísmo pagão. É claro, a Bíblia diz que “Deus enviou e sacrificou seu único Filho” – mas é assim que devemos interpretar isso: o Filho não estava presente em Deus antes da Encarnação, sentado lá em cima ao lado d’Ele. A Encarnação é o nascimento de Cristo, e depois de sua morte não há nem Pai nem Filho, mas “apenas” o Espírito Santo, a substância espiritual da comunidade religiosa. É somente nesse sentido que o Espírito Santo é a “síntese” de Pai e Filho, de Substância e Sujeito: Cristo representa a lacuna da negatividade, a singularidade subjetiva, e no Espírito Santo, a substância é “renascida” como comunidade virtual dos objetos singulares, persistindo apenas na atividade e pela atividade desses objetos. [1]

Mailson Cabral

[1] ZIZEK, Slavoj. A monstruosidade de Cristo: paradoxo ou dialética? São Paulo: Três Estrelas, 2014, p.46.

 

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Contra teologia

14 set

Há um sério problema na relação do crente com a bíblia. Chega a ser em muitos casos, doentia. E o que torna essa relação patológica é a própria teologia cristã, ela é o pathos da coisa.

As teologias corroboradas por cada confissão de fé são o verme que come a carne e os miolos do crente. E isso não se dá pelo fato de que as igrejas não tenham o direito de justificar a sua razão de ser em deus e na bíblia, a questão é o quão manipulado pela política institucional se dá essa relação de fé e bíblia no meio cristão, e principalmente no evangélico. Aquela coisa bonita de livre interpretação nunca foi livre de verdade, a diferença é que se podia agora checar o que uma determinada teologia interpretou do texto, o que ela diz ser a leitura correta.

Não se trata, em termos grosseiros, de se apropriar da “mensagem”, (ou seriam mensagens?), mas forçar o texto a dizer algo que ele nunca disse. Algo que o seu autor nunca pretendeu comunicar. Ou ainda descontextualizar o texto de seu contexto histórico-social. E outro detalhe: não se assume a sua própria hermenêutica confessional que se lança sobre os textos como produto da história e cultura, porém de natureza divina. Isso, a meu ver, é de uma maledicência sem limites para com o fiel. História, exegese e hermenêutica – críticas, vale-se ressaltar – deveriam caminhar juntas com qualquer teologia que se pretendesse séria.  Não se pode eliminar a intenção do autor e seu tempo histórico em detrimento de uma confissão teológica, isso é má fé.

Todo esse papo um tanto técnico parece bem distante da realidade prática de uma igreja, e de fato está. E é justamente por isso que perdeu-se muito em termos de possibilidades de se reinterpretar a relação do fiel com a bíblia, da comunidade de fieis quanto comunidade e sua relação com o restante do mundo e da própria concepção de teologia cristã. Danos irreparáveis. Não posso deixar de dizer isso já que sou uma cria, ainda que um tanto distante é verdade, da Reforma. Em consequência desse fechamento ideológico da tríade política-dogma-instituição se reproduz a torto e a direito: alienação religiosa. As concepções de fé, salvação, diálogo e comunhão ficam limitadas pelas lentes da denominação, salvo raras exceções.

Não há uma leitura única da bíblia, nem no cânon de Niceia e muito menos no de Lutero. Múltiplas leituras, múltiplas disputas… Múltiplos são também os engajamentos que determinam as práxis teológicas de cada instituição que surgem a partir dessas leituras.

A meu ver, a única saída possível é de baixo para cima: o crente deve buscar sua autonomia como sujeito religioso para além da sua denominação e para além da sua religião. A questão é que as ferramentas epistemológicas para isso não estão no contexto da igreja, elas não as dá e muito menos incentiva a essa busca, uma vez que sua lógica é a da autopreservação. A educação para autonomia se encontra fora dos muros ideológicos, trata-se de educar o olhar, e não domesticá-lo. Ensinar e não catequizar. Utilizar a racionalidade para repensar a própria fé e não fazer racionalizações teológicas. Essas são coisas que me fazem duvidar severamente sobre o que as igrejas realmente se alicerçam.

Enquanto isso, o que poderia servir como elemento desalienador das massas da lógica niilista capitalista e do consumo pelo consumo, só corrobora sua lógica interna, isso quando não se alimenta da lógica capitalista. Numa palavra: se existir o Espírito Santo, o que compreendo como o amor entre os fiéis e a própria comunidade dos fiéis, ele ainda dorme em suas possibilidades revolucionárias ou jaz em berço esplêndido.

Mailson Cabral