Arquivo | agosto, 2014

Alguns apontamentos sobre transdisciplinaridade e religião

11 ago

A religião, pelo menos no seu sentido psicológico, está profundamente enraizada na busca, no desejo de dar sentido à existência. É nesse desejo que irrompe a ideia do sagrado, aquilo que se opõe ao profano, quebra a homogeneidade do espaço e do tempo para o homem, em suma, traz à tona a consciência de um mundo real e significativo. É nesse sentido que Mircea Eliade afirmou que “o sagrado é um elemento na estrutura da consciência humana, e não um estágio na história dessa consciência.”[1] É dentro da ideia do sagrado onde estão a religião e os seus mitos centrais. São esses mitos que contam como a realidade veio à existência e como ela se tornou tal como é. Pode-se afirmar que o dossel onde habita toda a biodiversidade das crenças tem seus troncos e raízes fincados aí.

Sob essa perspectiva, encontramos apoio na concepção feuerbachiana da religião, como bem apontou Rubem Alves “[…] invertendo-se a divindade do substantivo próprio pela divindade do sujeito humano e teremos a verdade.” [2]Ampliando o raciocínio: na projeção da realidade que ela ajuda a construir a religião se oculta tal como ela é, fenômeno humano. Tal concepção longe de esgotar o sentido do fenômeno religioso, também não permite o viés apologético. O que nos leva a questões que, a meu ver, ainda se revelam sem resposta: Qual o status epistemológico último da religião? Qual a relação exata entre o que se conhece e o objeto conhecido? Até onde se pode conhecer o fenômeno religioso, dado que o mesmo mecanismo que o investiga (cérebro/mente) é o produtor desse objeto? O que nos foge a percepção, ainda que na aguçada visão das Ciências da Religião desse dançar dervixico e mutante que é a religião?

Ao que podemos responder que nem um misticismo ou positivismo científico nos será suficiente para compreender as questões que se levantam. Muito menos o nosso atual aporte disciplinar, que na dicotomização do homem, nos faz perder de vista a complexidade da religião no humano.  O que torna necessária uma perspectiva transdisciplinar que nos dê um suporte mais adequado para a compreensão desse fenômeno. Situo a transdisciplinaridade entendida como uma reflexão sobre os problemas que surgem da hiperespecialização nos conteúdos disciplinares, seus significados e funções. O que nos levaria a uma nova problematização da questão, superando os limites de um pensamento reducionista da religião, e seguir no caminho de um conhecimento complexo da experiência religiosa em seu conjunto.

Não seria também esse paradigma um limiar para uma atitude transreligiosa?

Mailson Cabral

[1] Essa fala de Eliade pode ser encontrada em uma entrevista concedida ao indólogo Jean Varenne, publicada em 1984 na edição 56 da revista francesa “QUESTION DE”. Que pode ser conferida aqui. Ela também está presente no seu livro Origens. Lisboa, Edições 70, 1989, p. 10.

[2] ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: Paulinas, 1982, p.103.

No Olimpo – ou o nascedouro dos deuses

9 ago

 

Religião e bondade?

3 ago

Penso que seja uma grande ilusão querer for fina força atestar que a religião é uma coisa boa por si só. No discurso ecumênico, por exemplo, defende-se uma ideia de unidade fraterna por meio das crenças, como se todas juntas fossem orientadas para um bem maior do ser humano. Não há nada mais falso do que isso. Falso até os ossos. Explico melhor: não acredito nessa forma de compreender a religião e nem a história me sugere que deva acreditar. O que acontece é que as crenças religiosas podem ser tanto potencialmente boas e más e não boas ou más. Como bem expôs Eliade ao tratar sobre os aspectos mitológicos da religião:

“O mito, em si mesmo, não é uma garantia de ‘bondade’ nem de moral. Sua função consiste em revelar os modelos e fornecer assim uma significação ao Mundo e à existência humana. Daí o seu imenso papel na constituição do homem. Graças ao mito, como já dissemos, despontam lentamente as ideias de realidade, de valor, de transcendência.”[1]

As crenças religiosas partem de nós, seres humanos, esse complexo biocultural bípede com polegares opositores e uma hipertrofia cerebral chamada neocórtex. Como último estágio da evolução orgânica surgiu a consciência, a saber, a parte mais mal acabada pela natureza e ao mesmo tempo a mais sublime. É no nosso sistema trifásico cérebro/mente/cultura que emergem os deuses, espíritos, orixás, e toda a sorte de representações que situamos no transcendente.  As crenças surgem de nós e retroagem sobre nós, fazem parte da nossa construção como ser socioantropológico, ajudam-nos a fundar e ordenar a realidade do mundo tornado humano.

Nesse contexto, não faz sentido afirmar que as religiões são naturalmente orientadas para o bem. Nessa mesma linha de raciocínio poderia se sugerir que o homo sapiens é uma espécie inclinada naturalmente para o bem, o que não faz nenhum sentido. A propósito, não custa nada lembrar que maldade e bondade são valores construídos socioculturalmente, não são ontológicos, e a religião é moldadora e moldada por eles.

A título de exemplo, basta lembrar os monoteísmos de origem abraâmica (judaísmo, cristianismo e islamismo) e ver o quanto são diferentes apesar do seu tronco comum. Isto para não entrar na questão de como a ideia monoteísta de deus é carregada em sua gênese de sentido político e usada como arma retórica de controle social e psicológico como também legitimadora de modelos de governos.

Como disse, não consigo acreditar que as religiões são boas, elas são potencialmente dualistas, pois somos nós quem tomamos as decisões em nome dos deuses. O problema é que para muitos é difícil assumir isso.

Mailson Cabral

[1] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, p.128.