Arquivo | julho, 2014

Leituras para compreender a Religião

30 jul

Já faz algum tempo que estudo o fenômeno religioso. Do início do ano para cá, li e reli alguns livros que versam sobre a temática e outros que o fazem ainda que indiretamente. Como meu interesse por religião é quase um transtorno obsessivo compulsivo – admito que seja um pouco exagerada a analogia – procuro sempre sistematizar as leituras que faço.

Hoje em dia é relativamente fácil encontrar bons artigos e vídeos na internet e até mesmo livros para ler on-line ou baixar. Inclusive publiquei aqui, juntamente com  uma pequena lista de livros,  alguns blogs de autores independentes com um conteúdo de boa qualidade na área. Todavia ainda sou daqueles que preferem o bom e velho livro de papel. Alguma coisa na celulose deve me atrair.

Com intuito de rememorar alguns dessas leituras segue uma pequena lista de alguns autores que me ajudaram a compreender o fenômeno religioso.

Dogmatismo e Tolerância, foi uma das minhas últimas leituras no campo teológico, obra do saudoso Rubem Alves. Posso dizer que é um dos melhores livros da área já escritos em terras tupiniquins. Oriundo da vertente presbiteriana, Rubem Alves, rapidamente se converteu numa ovelha rebelde sendo um dos precursores da Teologia da Libertação. Em seu Dogmatismo e Tolerância, ele faz uma releitura da história do protestantismo na América Latina e no Brasil e seus encontros e desencontros com o Catolicismo. Outros três livros dele que tive a oportunidade de ler foram Teologia do cotidiano, O que é religião? e o Filosofia da Ciência. Todos muito bons. É verdade que hoje não me tenho muito interesse pela Teologia cristã, mas devo ao Rubem o grande “ponta pé” inicial para pensar fora da caixa dos moldes dogmáticos.

Ainda na linha do cristianismo outro livro interessante é O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê, de Bart D. Ehman. Trata-se de uma introdução a crítica literária bíblica voltada ao público leigo. Se você pensava que o Novo Testamento é fácil de ler, não conseguirá mais pensar da mesma maneira. Ehrman desconstrói a boa e velha leitura de púlpito, escolas dominicais e muitos seminários sobre a “perfeita” coerência e harmonia dos livros do Novo Testamento, ele mostra as diferenças entre os antigos manuscritos, sobre os copistas que produziram as Escrituras e como eles faziam alterações textuais teologicamente motivadas e os reflexos dos mundos sociais da época na formação dos textos.

O anticristo, sem dúvida a crítica mais pesada e violenta que li contra o cristianismo desde que me entendo por gente. Pesada pelo rubor e lucidez dos argumentos e violenta pela retórica e pelo gênio de Nietzsche. Cito aqui este pequeno trecho da seção 38 do livro: “Até o mesmo um homem com a mais modesta das exigências de retidão precisa saber que um teólogo, um sacerdote, um papa de hoje em dia não apenas erra, quando fala, como também mente – que não mais escapa da culpa alegando ‘inocência’ ou ‘ignorância’. O sacerdote sabe, como sabe todo indivíduo, que não existe mais ‘Deus’ ou ‘pecador’ ou ‘Salvador’ algum – e que o ‘livre-arbítrio’ e a ordem moral do mundo’ são mentiras –: a reflexão séria e a profunda autossuperação do espírito não permitem ao homem fingir que não sabe disso…” (2012, p.67). Acho que dá para ter uma noção do conteúdo do livro. Todavia, é importante lembrar que Nietzsche é uma mistura de doutor/monstro: aristocrata e escravista, muito das suas ideias refletem esses aspectos, mas penso que esse artigo é curto de mais para entrar numa crítica histórico-filosófica do autor – quem quiser se aprofundar mais um pouco sobre esse lado mais sombrio do Nietzsche segue aqui o link . Outros dois livros dele que tive a oportunidade de ler foram Assim falava Zaratustra e O crepúsculo dos Ídolos.

Partindo para o campo da sociologia da religião uma leitura fundamental para mim foi O dossel sagrado, de Peter Berger. O livro versa sobre a religião como elemento de legitimação para a construção social da realidade. Ela tem o poder alienante de fazer o homem “esquecer” que instituições, tradições e deuses são construções do próprio homem, que o homem ao se construir enquanto homem as gera e por elas também é moldado. Como Berger coloca logo no início do livro: “A sociedade é um fenômeno dialético por ser um produto humano, e nada mais que um produto humano que, no entanto, retroage continuamente sobre o seu produtor. A sociedade é um produto do homem. […] Pode-se afirmar, no entanto, que o homem é produto da sociedade.” (1985, p.15).

No campo da fenomenologia da religião duas obras se destacam: O sagrado e o profano e Mito e realidade de Mircea Eliade. Posso afirmar sem medo de errar que ele é um dos autores fundamentais para se pensar o viés fenomenológico da religião. Eliade nos leva para o universo do homo religiosus, faz enxergar questões como o tempo sagrado, a heterogeneidade do espaço, os mitos cosmogónicos e a dessacralização do mundo para o homem moderno. Sem dúvida devo muito a ele o entendimento que tenho da mística religiosa e inspiração para o nome do meu blog.

Um livro fundamental para a compreensão da epistemologia das Ciências das Religiões é O que é Ciência da Religião?, de Hans-Jurgen Greschat. Nele o autor mostra o passo a passo da problematização, área de pesquisa e metodologia adotadas pela Ciência da Religião no estudo do fenômeno religioso. Para quem quer aprender alguns dos aspectos mais teóricos da área numa linguagem bem acessível ele também é uma boa sugestão.

No campo da filosofia tive o prazer de ler no começo deste ano foi Aprender a viver: filosofia para os novos tempos, de Luc Ferry. Trata-se de uma introdução a filosofia, porém situa a filosofia como uma salvação pela sabedoria. Ferry afirma que a filosofia é uma salvação do homem por si mesmo, enquanto que a religião seria a salvação por meio de um Outro. E essa salvação seria contra o temor primordial do ser humano: o medo da morte. A morte mostra-nos nossa fragilidade e efemeridade, coisas que não são lá muito agradáveis de serem encaradas na sua crueza fisiológica por nós. A filosofia e a religião surgem da necessidade de dar sentido à existência, porém tomam caminhos bem distintos.

Ainda na linha filosófica, mas agora tomando o viés pedagógico, não posso deixar de citar o livro Educação: do senso comum à consciência filosófica, de Dermeval Saviani. Esse livro foi um grande norteador para pensar criticamente a educação por meio da filosofia. Saviani fornece os elementos epistemológicos para fazer a crítica ao sistema educacional que temos e que pouco no educa para o senso crítico, para a autonomia. Eis uma frase emblemática de Saviani para mim: “Algo que não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que preciso saber, eis-me, então, diante de um problema.” (1983, p.21)

Edgar Morin. Aqui eu preciso ir com calma. Amo de paixão os livros de Morin. Tudo o que encontrei dele até hoje li: Introdução ao pensamento Complexo, Cabeça bem-feita, Os sete saberes necessários à educação do futuro, Cultura e Barbáries europeias, Terra-pátria e Amor, poesia e sabedoria. Aguardo ainda a oportunidade de ler os seis volumes do seu famoso O método. Mas por que todo esse meu interesse por Edgar Morin? Pois, temos aí um dos maiores pensadores da contemporaneidade. Sua obra versa sobre diferentes temas campos do saber: era planetária, tetralogia pedagógica, trindade humana, política, pensamento complexo e método. Encontramos na sua obra uma genialidade monstruosa, ele retoma pensadores como Heráclito, Pascal, Montaigne, Marx entre outros, através da dialógica do pensamento complexo ele costura e ultrapassa as ideias deles. Já escrevi um artigo sobre alguns apontamentos de Edgar Morin sobre a Religião aqui.  Não me estenderei mais a falar sobre ele, Morin deve ser conferido na integra e não pelo disse me disse. Aqui vai uma fala sobre o pensamento complexo dele:

“O que é a complexidade? A um primeiro olhar, a complexidade é um tecido (complexos: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneas inseparavelmente associadas: ela coloca o paradoxo do uno e do múltiplo. Num momento, a complexidade é efetivamente o tecido de acontecimentos, ações, interações, retroações, determinações, acasos, que constituem nosso mundo fenomênico. Mas então a complexidade se apresenta com os traços inquietantes do emaranhado, do inextricável, da desordem, da ambiguidade, da incerteza… “(MORIN, 2011, p.13)

Essa é a lista de livros que me ajudam a pensar o fenômeno religioso. Há um pouco de cada uma dessas obras em meus textos, alguns estão tão entranhados que é difícil dizer, às vezes, o que é minha fala, o que é de Eliade, de Morin ou de Nietzsche. Penso que é isso que acontecesse com todos que gastam muito tempo lendo, relendo, fichando e escrevendo com uma determinada temática, no meu caso, a religião.

Essa é minha lista de livros. Não constitui nenhum cânon que deve ser seguido por alguém, são minhas experiências de leituras. Se você deseja trilhar os caminhos do estudo da religião, ou sobre qualquer outro tema, a sério, vale lembrar aquela frase de Alice no país das Maravilhas: “Para quem não sabe para aonde vai, qualquer caminho serve”.

No demais, desejo que você encontre a sua própria lista e tenha suas próprias experiências de leituras e, se possível, escreva sobre elas, é algo muito valioso para o amadurecimento pessoal e intelectual.

Mailson Cabral.

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

 

_____________ Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. São Paulo. Edições Loyola, 2003.

 

_____________ O que é Região? São Paulo: Brasiliense, 1982.

 

_____________ Teologia do cotidiano: meditações sobre o momento da eternidade. São Paulo: Olho d’água, 1994.

 

BERGER, Peter. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.

 

EHERMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? : quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.

ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

____________ Mito e realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

FERRY, Luc. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

GRESCHAT, Hans-Jurgen. O que é ciência da religião? São Paulo: Paulinas, 2005.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

 

____________Amor, poesia e sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2005.

 

____________Cultura e barbárie europeias. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2009.

 

_____________ Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2011.

 

_____________ Os sete saberes necessários á educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002.

 

_____________ Terra-pátria. Porto alegre: sulina, 1995.

 

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Petrópolis: Vozes, 2011.

 

_____________  O Anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2012.

 

_____________ O crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo. Porto Alegre: L&PM, 2012.

 

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo. Cortez Editora, 1983.

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A parábola de Animus e Anima

26 jul

Acontece algo de muito interessante na relação entre ciências humanas e experiências religiosas: Animus (espírito/cérebro/razão) se encontra frente a frente com Anima (alma/coração/fé). Esse momento tenso e conflitivo é exemplificado na belíssima e poética parábola de Paul Claudel como um relacionamento conjugal. Há de se declarar logo o divórcio entre eles ou encontrar um caminho para resignificar essa união. Todavia, ainda restará tempo para isso?

“Tudo corre bem no lar de Animus e Anima, o espírito e a alma. Já vai longe o tempo, findou-se a lua de mel durante a qual Anima tinha direito de falar tudo o que queria, enquanto Animus a escutava encantado. Afinal de contas, não foi Anima quem trouxe o dote e não é ela quem sustenta a casa? Mas Animus não se deixou reduzir a essa posição subalterna por muito tempo e logo revelou sua verdadeira natureza, vaidosa, pedante, despótica. Anima é uma ignorante, uma louca, ela jamais foi à escola, ao passo que Animus sabe uma porção de coisas, ele leu muitas coisas nos livros, aprendeu a falar com uma pedrinha na boca, de forma que, quando fala, ele fala tão bem que todos os seus amigos dizem que não se pode falar melhor que ele. Jamais se cansaria de escutá-lo. Anima já não tem o direito de dizer sequer uma palavra. Ele lhe tira as palavras da boca, de forma que, como se diz, sabe melhor que ela o que ela quer dizer e por meio de suas próprias teorias e reminiscências ele domina tudo, arranja tão bem as coisas que a pobrezinha não consegue reconhecer mais nada. Animus não é fiel, o que não o impede de ser ciumento, pois no fundo ele sabe que é Anima que possui toda a fortuna, ele é um mendigo vivendo daquilo que ela lhe dá. Assim ele não cessa de explorá-la, de atormentá-la para conseguir dinheiro; ele a belisca para fazê-la gritar, combina farsas, inventa histórias para fazê-la sofrer e ver o que ela diz, e à noite, ele conta tudo aos seus amigos no bar. Enquanto isso, depois dessas reuniões literárias que cheiram a vômito e ao fumo, ela continua silenciosa, em casa, cozinhando e limpando tudo da melhor maneira possível. É realmente inacreditável; no fundo Animus é um burguês, é metódico nos seus hábitos, gosta que lhe sirvam sempre os mesmos pratos. Contudo, aconteceu uma coisa engraçada. Um dia que Animus voltava para casa sem ser esperado, ou que cochilava após o jantar ou que talvez estivesse absorto no seu trabalho, ouviu Anima que cantava sozinha por detrás de uma porta cerrada, uma curiosa canção, alguma coisa que ele não conhecia e que não tinha meios para descobrir as notas, nem palavras, e nem mesmo a clave; uma estranha e maravilhosa canção. Depois, sorrateiramente, ele tentou fazê-la repetir, mas Anima fingiu não compreender. Ela se cala quando ele a olha. A alma se cala quando o espírito a observa… ”[1]

Mailson Cabral

[1] CLAUDEL, Paul in DESROCHE, Henri. O homem e suas religiões: ciências humanas e experiências religiosas. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 9-10.

O depoimento de uma ateia sobre deus

9 jul

Um desabafo da minha amiga Raquel Melo. É um daqueles gritos que ficam entalados lá na garganta, “Eu to cansada de ouvir em todo canto que tudo que acontece é por causa de deus…” E como uma rajada de uma HK ela dispara:

“deus claramente não existe para mim, mas seu nome… isso sim tem poder. Joelhos se prostram ao falar seu nome, guerras são travadas, sacrifícios tolos são feitos e a razão deixada de lado. As pessoas não raciocinam e apenas fazem em stand-by tudo por deus. Todas as discussões são explicadas quando se toca no nome de deus. Toda a ignorância é pregada e tudo então pode fazer sentido quando apenas é falado um nome divino. deus sim é poderoso… eu queria ser deus.”

Irretocável.

Mailson Cabral

Vídeo

O Pálido Ponto Azul – Carl Sagan

1 jul

“Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importancia, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não ha nenhum indicio que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nos mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul.”

Por Carl Sagan.