Arquivo | junho, 2014

Diálogos sobre religião

27 jun

É famoso o bordão “religião não se discute.” Pois bem, aqui queremos provar o contrário. Religião se discute sim e pode ser algo bem frutífero. Eu aceitei esse desafio com o JD Lucas do blog Monomito. Nosso diálogo começou pelo facebook e decidimos ampliá-lo para nossos blogs. Aqui vai a primeira parte da nossa discussão. Só os deuses nos dirão onde isso vai chegar!

Nossa conversa começou motivada por uma entrevista feita com o Caio Fábio no programa The Noite pelo apresentador Danilo Gentilli que pode ser conferida aqui.

 

JD Lucas – Você assistiu à entrevista do pastor Caio Fábio ao Danilo Gentilli?

Mailson Cabral – Sim assisti. Mas ele só enfia mais o pé na jaca. Ele dá uma de libertador pela retórica, mas pega de volta o mesmo discurso religioso, a diferença é que está numa nova mensagem. Quem instrui o povo com um livro político-religioso não pode falar em liberdade.

A dependência da dogmática do livro, agora reinterpretado por um novo guru, persiste. Ele até fala que o povo é dominado pelo rolo compressor do medo. Só que ele “esquece” que esse rolo tem um nome: a bíblia. Você vê que ele não tá nem aí pra isso na entrevista. O que vale é o que ele quer interpretar e da maneira que ele quer interpretar. Sendo assim prefiro um místico medieval como Mestre Eckhart do que o Caio Fábio. Pelo menos ele dá logo as cartas.

JD – Não acho que a bíblia seja o rolo compressor, estritamente. Só na medida em que são o Alcorão e outros livros sagrados de outras religiões. A questão de munir o povo pela conscientização é justamente instaurar essa necessidade de uma vivência própria da palavra. A bíblia é um livro incrível, radical, precisa ser entendido dentro do seu contexto, ao mesmo tempo com abertura para as questões concernentes à própria linguagem e seu contexto. Não vi problema na atitude do pastor, pelo contrário. Como líder de um tipo de mentalidade que precisa ser levado em consideração com urgência, me pareceu pertinente tudo o que ele apontou. Mesmo os dados mais adjacentes.

Em relação a isso de preferir um ou outro mestre, fico com o Tao Te King: Não louvando o ilustre, mantêm-se o homem alheio à rivalidade.

Mailson – JD, a bíblia é um rolo compressor sim. Basta lembrar que ela não é um livro, mas um conjunto de livros que foram escolhidos pelos líderes das primeiras comunidades cristãs – isso só para falar do novo testamento. O Novo Testamento só aparece no formato que nós o temos hoje em 367d.c. com Atanásio, bispo de Alexandria. Muitos livros ficaram de fora dessa seleção, pois não eram politicamente viáveis. E o material que chegou a ele nem eram as cópias das cópias dos autógrafos. Temos aí uns 300 e poucos anos de textos sendo escritos e alterados. A não ser que você acredite que o Espírito Santo guardou os textos, inspirou os autores e ainda fez a seleção do cânon, ele é sim um rolo compressor. Antes de ser um “livro” espiritual a bíblia é um livro político. Há uma tradição de lutas e conflitos em cada página. Todavia isso não é passado pelas igrejas, uma vez que se depende da bíblia para justificar o seu jogo.

A conscientização do povo, quer dizer, do sujeito religioso não é vantajosa para os líderes religiosos cristãos, para nenhum deles, nenhum. Uma educação que conscientize o sujeito religioso deve ser uma educação para a autonomia, que torne ele capaz de ser autocrítico com relação aos elementos que compõe a sua fé. Concordo que a bíblia é um livro incrível e radical que precisa ser entendido no seu contexto. Mas se o indivíduo não tem as ferramentas epistemológicas para fazer isso, ele continua a fazer suas racionalizações teológicas e a recebê-las também dos seus líderes religiosos.

Não vejo o Caio Fábio como uma pessoa preocupada com esse tipo de conscientização. Ele nunca assumiu esse compromisso. É verdade que ele foge ao discurso comum dos televangelistas, porém penso que ele não tenha sido pertinente sobre o que ele abordou na entrevista.

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Acaso há salvação para a teologia?

25 jun

Haverá salvação para a teologia? Particularmente penso que não. Enquanto ela se mantiver numa plataforma dogmática e metafísica, ensimesmada com seu reflexo no espelho, será incapaz de dialogar com as ciências humanas, isto é, de enxergar a religião como fenômeno humano. Qualquer teologia que parta de outro ponto é somente autoilusão e defesa doutrinária.

Cabe ainda pontuar mais uma coisa: a teologia é feita por homens, não pelo conteúdo mitológico de suas crenças. É necessário abandonar a postura de guardião dos dogmas para que a teologia tenha algo de relevante a dizer em nossos tempos. E vale acrescentar que mascarar as velhas doutrinas com roupagens pós-modernas é trocar seis por meia dúzia. Não resolvemos nada com isso. Enquanto a crítica e a autocrítica passarem longe do trabalho teológico o que teremos serão apenas teólogos em suas torres de marfim. E isso só interessa a quem deseja manter o poder do controle institucional da igreja – e isso independe de denominação – por meio dos mitos e a procura por corroborá-los pela teologia.

Todavia devo confessar que já perdi as esperanças de ver uma teologia autocrítica. O que encontramos nos seminários é alguma coisa que está em avançado estado de decomposição. Não ousaria meter as mãos nem mesmo de luvas.

Mailson Cabral

Vídeo

Marcelo Gleiser – A nossa história da criação

21 jun

Marcelo Gleiser costura brilhantemente a história das crenças e das descobertas sobre a origem do universo. Como os mitos milenares e a ciência moderna chegaram a conclusões análogas? Vale a pena conferir.

Carta de Deveres Religiosos

20 jun

Penso que deveria ser obrigatório serem seguidas algumas regras de convivência para evitar os desentendimentos causados pelos fundamentalistas das religiões. Os proselitismos, violações dos direitos humanos e a pseudotolerância poderiam ser superados se houvesse algum tipo de consenso no que diz respeito à diversidade religiosa. Falo isso no contexto de convivência entre religiosos, onde bom senso e respeito ao outro não deem lugar a demonização e negação das crenças do outro.

Acredito que deveria existir um estatuto dos deveres religiosos, ou melhor, dos deveres dos religiosos. Ele se dirigiria principalmente aos líderes religiosos. Claro que penso isso dentro do contexto nacional. Aqui vão alguns pontos que deveriam entrar numa possível relação de deveres:

  1. Todo líder religioso deve passar por uma sala de aula e estudar história das religiões, diálogo inter-religioso e antropologia da religião, no mínimo. E ofertar esse tipo de conhecimento aos demais fieis da sua comunidade de fé;
  2. É dever de todo líder religioso fazer um intercâmbio religioso com uma tradição de fé diferente da sua. Passar pelo menos um mês convivendo nesse outro contexto e aprender os significados e valores das práticas religiosas para aquele grupo religioso;
  3. Todo grupo religioso deve participar de fóruns inter-religiosos pelo menos uma vez por semestre;
  4. A Declaração Universal dos Direitos Humanos deve ser estudada e trabalhada em cada centro religioso. A compreensão da igualdade e seguridade dos Direitos Humanos independente de credo, etnia ou classe social deve ser ensinada;
  5. A formação do espírito autocrítico do sujeito religioso deve ser assegurada pelos líderes religiosos. Não se pode manter um fiel como massa de manobra dos seus ministros espirituais.

Trata-se aqui de um projeto utópico. Cultivo um profundo ceticismo quanto à aplicação dessas ideias. Mas penso que são um bom ponto de partida para se repensar a questão da diversidade religiosa no país, quem sabe uma política dialogal de convivência.

Mailson Cabral.

Milenarismos cristãos

15 jun

“O cristianismo convertido em religião oficial do Império Romano, condenou o milenarismo como herético, embora Padres ilustres tenham professado no passado. Mas a Igreja aceitara a História, e o eschaton deixou de ser o evento iminente que fora durante as perseguições. O Mundo, este mundo, com todos os seus pecados, injustiças e crueldades, continuou. Somente Deus sabia a hora do Fim do Mundo e uma coisa parecia certa: esse Fim não estava próximo. Com o triunfo da Igreja, o Reino dos Céus já se encontrava sobre a Terra e, em certo sentido, o mundo antigo já fora destruído. No antimilenarismo oficial da Igreja, reconhece-se a primeira manifestação da era, esforçando-se por tornar a existência humana um pouco menos desditosa do que fora durante as grandes crises históricas. A igreja tomava essa posição contra os profetas e os visionários apocalípticos de toda espécie.

Alguns séculos mais tarde, após a irrupção do Islã no Mediterrâneo, mas sobretudo após o século XI, reapareceram os movimentos milenaristas e escatológicos, dirigidos desta vez contra a Igreja ou contra a hierarquia. Várias características comuns se destacavam nesses movimentos: seus inspiradores aguardam e proclamam a restauração do Paraíso sobre a Terra, após um período de provações e terríveis cataclismos. O Fim eminente do Mundo era também esperado por Lutero. Durante séculos reencontramos, por diversas vezes, a mesma idéia religiosa: Este mundo – o Mundo da História – é injusto, abominável, demoníaco; felizmente, ele já está em vias de decomposição, as catástrofes já se iniciaram, este velho mundo já começa a fender-se de todos os lados; muito em breve será aniquilado, as forças das trevas serão definitivamente derrotadas, os ‘bons’ triunfarão, e o Paraíso será recuperado. Todos os movimentos milenaristas e escatológicos dão provas de otimismo. Eles reagem contra o terror da história com uma força que somente o extremo desespero pode suscitar. Há vários séculos, porém, que as grandes ortodoxias cristãs não mais conhecem a tensão escatológica. A expectativa do Fim do Mundo e a iminência do julgamento final não caracterizam nenhuma das grandes Igrejas cristãs. O milenarismo mal sobrevive em algumas recentes seitas cristãs.

A mitologia escatológica e milenarista reapareceu nestes últimos tempos na Europa, em dois movimentos políticos totalitários. Embora radicalmente secularizados na aparência, o nazismo e o comunismo estão carregados de elementos escatológicos; eles anunciam o Fim deste mundo e o início de uma era de abundância e beatitude. Norman Cohn, autor do mais recente livro o milenarismo, escreve a propósito do nacional-socialismo e do marxismo-leninismo: ‘Sob a terminologia pseudocientífica de que um e outro se servem, pode-se reconhecer facilmente uma fantasia cujos elementos lembram singularmente as elucubrações já em curso na Europa medieval. A batalha final e decisiva dos Eleitos (sejam eles a ‘raça ariana’ ou o ‘proletariado’) contra as hostes do mal (sejam eles os judeus ou a ‘burguesia’); um decreto da Providência, pelo qual os Eleitos serão amplamente compensados por todos os seus sofrimentos, com alegrias do domínio total ou da comunidade total ou de ambos os lados ao mesmo tempo; um mundo purificado de todo mal e no qual a história irá encontrar sua consumação – eis algumas antigas quimeras que ainda hoje acalentamos. ’ ”[1]

 

[1] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, p.64-65.

Últimas impressões

9 jun

Remexendo em umas anotações antigas, encontrei algo que escrevi no último réveillon. Trata-se de algumas impressões sobre como encaramos a religião que pertencemos ou já pertencemos no decorrer do tempo. Sem mais delongas, segue o texto.

Fim de ano. Amigos e família reunidos em casa, passamos a virada de 2013-2014 juntos. Nas conversas, gestos, olhares e falas já depois das tantas, ficou muito nítida a questão da crença religiosa para a maioria das pessoas.

Eu percorri um longo caminho até a descrença, não foi do dia para a noite que os dogmas da fé deixaram de ser uma verdade absoluta para mim. Quando olho para as pessoas que fazem parte do meu antigo ciclo de convívio cristão, não tem como não perceber o contraste de idéias e interpretação das crenças entre nós. Não digo isso como uma pretensão à arrogância, porém por ver que a distancia que nos separa é de conhecimento crítico, conhecimento esse que faz toda a diferença na maneira como enxergarmos nossas tradições de fé. De um lado compreendo as raízes do fundamentalismo religioso, o poder mágico e de encanto que as crenças exercem sobre nós. Todavia, falar para um crente sobre magia e encanto e que isso está inserido no que ele crê quase sempre leva a desentendimentos. Sempre sou surpreendido (se bem que já não fico mais tão surpreso com isso) com um bom cristão tentando me convencer a me voltar aos pés de Cristo e que Jesus morreria mais uma vez na cruz por mim – não sei por que essa tara louca de sempre querer crucificar Jesus – e outros argumentos que vão deixando o discurso mais decadente.

A compreensão do mito como mito, desarma o poder mágico que ele exerce sobre as pessoas, o que não quer dizer que eles são irrelevantes para a humanidade. Os mitos, pelo menos até onde consigo enxergar, sempre guiaram a história da humanidade no globo terrestre. A grande questão é que o mito não se deixa perceber como tal, assume o status de realidade como excelência. O problema do mito na religião, e é aí onde direciono minha crítica, este exerce um fascínio infantil sobre nós, não há como negar e muitos passam uma vida toda nesse enamoramento infanto-juvenil.

Hoje caminho bem distante desse romance com a religião. Admito que ele interessa-me muito como objeto de estudo, a percepção dele como construção antropossocial, todavia não mais como objeto de fé. Devo admitir que quando escuto alguém com palavras de ordem do tipo “eu decreto”, “tomo posse” ou ainda “Deus me falou que…” as encaro com bastante desconfiança, sei que não há possibilidade de diálogo aí, pois o fechamento sobre a própria crença é evidente, os mitos estão a pulsar nas veias tal como heroína. Sei que desvios dessa concepção de mundo são possíveis, sou uma prova disso. Mas vamos combinar, não é algo fácil. Propor-se a criticar o mundo bem ordenado pela religião não é coisa que se aprenda na igreja ou em qualquer centro religioso, é algo particular, uma tomada de consciência individual. Pode-se ensinar a crítica, mas não o querer criticar, se permitir criticar. Penso que essa é a diferença que senti quando estava sentado à mesa com família e amigos.

Mailson Cabral.