Arquivo | abril, 2014

Fé e razão: uma possível dialógica?

24 abr

Não só a fé entra em crise, mas a razão também. É necessário começar o texto afirmando que a razão também passa por crises, e isso é primordial para o seu amadurecimento, para que possamos desenvolver a nossa racionalidade de modo aberto, dialogal e não dogmaticamente.  A verdadeira racionalidade está aberta ao diálogo. E é nessa analogia sobre fechamento e abertura de pensamento que quero situar a relação entre fé e razão.

É preciso dizer logo de saída que não tenho a mínima intenção de fazer confundir proselitismo religioso com fé, situo a fé aqui como uma atitude aberta para os mistérios da existência, a atitude de busca de sentido da existência seja em experiências religiosas, estéticas ou políticas (ética), de maneira que manifeste algo de sagrado, isto é, algo que se oponha experiência cotidiana do homem e que traga sentido a ela. Compreendendo assim que somos os fazedores de sentido da existência, uma vez que a mesma não possui um sentindo em si, mas nós é que lhe damos um sentido, tal como Sartre disse: “A existência precede a essência.” [1]

No âmbito da religião, a fé de um fiel entra em crise quando ele compreende que ela é baseada em um corpo de doutrinas dadas por homens, porém tidas pela sua tradição religiosa como recebida ou inspirada pelos deuses. Não é necessário dizer que com isso a fé sofre grande abalo, pois sabe que ela é finita e limitada – ainda que em muitos casos se tente negar isso. Já não é mais possível conceber a posse da verdade absoluta, se ainda se quiser percorrer os caminhos da fé é necessário assumir uma atitude não intimista, capaz de dialogar com o mistério e aberta a compreensão da alteridade.

Todavia com a razão, as coisas parecem ser tão complicadas (às vezes até mais) do que com a fé. A razão é tomada não raras vezes como não suscetível ao erro e a ilusão, que ela não está sujeita a racionalizações. Esse fechamento pode nos embotar para a lucidez tanto quanto uma fé cega. No desenvolvimento da racionalidade humana urge a necessidade de se ensinar que a razão é suscetível ao erro e a ilusão, nas palavras de Edgar Morin: “O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão subestimar o problema da ilusão.”[2]

A razão e a fé entram em crise quando assumem que não possuem a verdade absoluta. É necessário admitir que carecemos de fundamentos ontológicos que possa por si só dizer o que é verdadeiro e o que é falso, certo ou errado, o que temos aqui são valores, e todos os valores são construídos histórico culturalmente, são atualizações hermenêuticas de como nos situamos na realidade a qual fundamos e que nela vivemos, são mecanismos de autocompressão antropológica. É isso o que os valores são. Nada mais.

E no que tange as questões existenciais, na busca de alguma lucidez, cabe a razão as penúltimas palavras, porém nosso derradeiro suspiro ainda será  aposta de fé, seja ela na razão, numa divindade ou mesmo no nada. Todavia vejo quase sempre a ideia de fé afastada da discussão dita madura, isto é, “racional”, por ser um termo frequentemente confundido com devaneio ou como apenas mais um elemento alienante da religião.

Aguardo ansiosamente o dia em que fé e razão possam se compreender dialogicamente em nossas rodas de conversa e meios acadêmicos, conhecendo os limites do discurso de ambas, e que elas têm mais em comum do que imaginamos, mas penso que esse anseio tenha resposta só daqui a muito tempo – ou não passe de um sonho.

Mailson Cabral.

[1] SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Rio de Janeiro: Vozes, 2013, p.19

[2] MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002, p.19.

 

Metamorfose

17 abr

Eis a grande virtude que habita quando passamos por uma crise: a metamorfose. No campo religioso tive minha crise. Tal como uma lagarta, fechei-me e comecei o meu processo de desconstrução e autoreconstrução de identidade religiosa. Com uma organização e uma forma de borboleta, diferente da lagarta, todavia permanecendo o mesmo, sai da crise. Em vão procuram os curiosos o meu casulo, agora voo livre e leve. Isso não é coisa que se explique ou se entenda olhando para as minhas cascas: é necessário querer voar também.

Mailson Cabral.

Comunhão e refeição: um caminho para a humanização

17 abr

O sentimento de fraternidade e de comunhão é algo que está presente nas diferentes tradições religiosas, mas que considero que está além delas. Penso que isto é expresso de maneira muito significante na refeição.

Acredito que nós, que vivemos nesta correria moderna, perdemos muito do sentido simbólico da refeição. Comemos às pressas, sem nunca poder perder tempo, sempre atrasados, é difícil parar e refletir no valor fraterno desse ato. Para o homem primitivo, a alimentação era algo decisivo, provavelmente ter o que comer era uma das coisas que mais ocupava a mente do homem. É verdade que já não vivemos mais em cavernas e não somos caçadores e coletores como os nossos ancestrais. De fato não sabemos na prática o valor que tinha para eles a caça, o plantio e a colheita, nem a desgraça que operava nas mentes ao ver o próprio grupo perecer pela escassez de alimentos.

Penso que na refeição ultrapassa-se o simples ato da alimentação, onde cada um sacia a sua fome e logo se retira para um canto, no comer junto se revela um dos nossos primeiros traços de humanidade, a consciência de comunhão, partilha-se não só alimento, mas também da presença dos que estão juntos. Não é à toa que os evangelhos se valem da última ceia para evocar isto, principalmente no evangelho de João.

As experiências de comunhão que são proporcionadas nos momentos de refeição talvez sejam as que podem melhor indicar para o senso de solidariedade para a raça humana. Todavia seja por questões de pobreza, – o que é uma vergonha para nós, porém não para muitos que têm a mesa farta – ou por questões familiares, desavenças religiosas, ou qualquer espécie de conflito, o pão e a comunhão são negados a muitos. Esquece-se que a partilha do pão tem a capacidade de nos humanizar.

A humanidade começa à mesa. Sem pão, vinho e comunhão o homem vive uma incompletude como ser. Nos espaços aonde há de fato comunhão, não há lugar para desavenças e intrigas, nestes espaços é onde eu quero estar. Independente das crenças ou não crenças.

Mailson Cabral.

Vídeo

Aikyo Cajita de musica Granada Hang, Bells, Flauta & Chelo

14 abr

Se tivermos de fato uma transcendência, sua imanência se dá, sem sombra de dúvidas, pela música.

Notas de uma missa de domingo

11 abr

Depois de muito tempo sem ir a um culto cristão, acabo por ter um “brainstorm” numa missa de domingo. Acho que o padre não iria gostar muito de ler minhas notas de rodapé para o sermão dele:

I

É preciso se libertar da bíblia como fetiche da fé, como mantra para a alma cansada. É necessário encará-la com seriedade e rigor crítico, ao invés de dar interpretações alegóricas que deixam o fiel alienado da realidade.

II

Quem vive na igreja “deve” ser santo? Você me diz que isso é uma vocação comum a todo cristão? Só se for vocação para a idiotice chamada pelo nome doutrina.

III

Nunca, nunca é Jesus quem fala nos evangelhos padre, são sempre palavras postas na boca dele por meio dos evangelistas e copistas.

IV

“Fora da igreja não há salvação” São Cipriano. Que cara dialogal, o inferno deve ser bem espaçoso pelo visto.

V

A neurose do amor: todo mundo DEVE amor ao próximo. Ora, se amar é um dever, deixa de ser amor. Amar implica liberdade para se escolher amar ou não. Uma ditadura do amor é tudo, menos amor.

 

P.S: É por essas e outras que digo que me tornei imprestável para a igreja, não consigo mais me situar no jogo apologético institucional da igreja nem nas suas leituras de fé. Há quem goste de se embebedar nisso, mas por essas tavernas da fé eu não costumo mais beber.

Mailson Cabral.

Uma lição de Hans-Jurgen Greschat sobre o que é ser autor

11 abr

“Os autores mostram respeito por si mesmo quando se mantêm honestos. Eles apresentam-se ao público com o que escrevem. Isso deixa alguns angustiados e outros vaidosos, o que faz com que rebusquem o que vai ser comunicado para que o conteúdo aparente mais do que realmente é. Quem não conhece as frases afetas, a fala ‘inchada’, os neologismos espetaculares? Quem escreve dessa maneira oferece a seus leitores água de torneira em copos de champanhe feitos de cristal falso. Aqueles que querem manter-se honestos dizem o que têm, mesmo quando isso é pouco ou não representa nada de extraordinário. Todavia, se trabalham profundamente com um objeto comum, seu texto deve ser útil para outros. Honestidade faz parte da autenticidade que, hoje em dia, é a aspiração de muitos autores, até mesmo cientistas. Afinal de contas, leitores espertos, sejam eles colegas, sejam  leigos, reconhecerão o que é autêntico e o que é falso.”[1]

 

[1] GRESCHAT, Hans-Jurgen. O que é ciência da religião? São Paulo: Paulinas, 2005, p.44.

Inquietações sobre a morte (II) – O peso da ausência

5 abr

É comum falar-se sobre aproveitar a presença das pessoas, mas quando elas se vão, amargamos a sua ausência. É vão procurar eufemismos, principalmente quando essa ausência é produto da morte, inevitável condição nossa como seres vivos. Por mais simplista que possa parecer àquela lógica que se aprende sobre o ciclo biológico da vida no primário ela continua verdadeira: “os seres vivos nascem, crescem, reproduzem e morrem”.

Com a morte vai-se não só essa coisa genérica que chamamos – não sei se por arrogância ou demência – de Homo sapiens, mas também os nossos próximos. Sei que é bem verdade que são poucos aqueles a quem podemos chamar de próximos, estes são as pessoas que amamos. Para céticos como eu, não há retornos após a morte, nada de reencarnação, ressurreição ou vida pós-morte do indivíduo. Tudo, absolutamente tudo o que nos é relevante de uma pessoa, sabedoria, amizade, amor ou até mesmo o contrário dessas virtudes persistem em nossas memórias na forma de lembranças.

De fato não sabemos o dia que nascerá amanhã, nem se nele nós e nossos amados estaremos, portanto, a frase de Horácio, poeta da Roma Antiga, continua válida: carpe diem. É verdade que normalmente as pessoas de quem somos mais próximos são, com frequência, com as quais mais temos discussões. Ainda temos muito o quê aprender na compreensão do outro pela simpatia, pela generosidade, pelo o reconhecer da alteridade, é um processo que demanda tempo.

Porém quando nos damos conta de quão fugaz é a presença, podemos de alguma maneira encontrar caminhos para superar esses problemas. Quando o peso da ausência enche nossa casa confesso que não existem fórmulas mágicas para resolver o problema, metáforas poéticas, por mais belas que sejam não eliminam o problema da ausência, da dor, do sofrimento.

A alternativa que fica é guardar o que de melhor podemos das pessoas que amamos: as boas lembranças, os momentos juntos. Isto é o que resta, todo o mais é retórica e choro de carpideiras.

Mailson Cabral.