Inquietações sobre a morte (I)

A morte, eis a derradeira questão filosófica. O que fazer diante dessa “indesejada das gentes”, como diria o poeta Manuel Bandeira? Quando ela bate a nossa porta, como proceder? Ela é realmente o fim? Há vida após a morte? De fato morremos mesmo? Não seria ela parte de um ciclo retroativo, ou até mesmo algo karmico?

Podemos levantar vários tipos de questionamentos, conhecer toda a filosofia, mas não podemos escapar da implacabilidade fisiológica da morte, estamos sujeitos à segunda lei da termodinâmica: tendemos à degradação. Pelo menos na perspectiva contemporânea ocidental (espero não está sendo vago com isso) a morte é uma fatalidade que revela nossa impotência diante da finitude da vida. Por mais que tenhamos nos desenvolvido tecnologicamente e culturalmente não deixamos de ser mortais. Vive-se muito mais hoje do que há cinco séculos, não há dúvida, contudo continuamos mortais.

Com a questão da morte se evidencia para nós a fragilidade da vida. Mas o que é a vida? Por que ela escorre tão rápido por entre os nossos dedos? Ela se desfaz tão facilmente, como uma bolha de sabão. Quando o fôlego cessa, sabemos que a vida, pelo menos a nível pragmático, se esvai junto. Isso se demonstra bem sempre que queremos descrever a personalidade de uma pessoa, dizemos coisas do tipo “ela é temperamental”, “ela é caridosa”, mas depois que a pessoa morre mudamos para “ela era temperamental”, “ela era caridosa”. Há muito mais do que uma simples mudança do tempo verbal: há uma noção de fim de existência implícita. O ser já não é, mas era. É sutil a mudança, mas o peso dela é muito mais do que gramatical, mexe-se com questões existenciais. É como se o fôlego esvaeceu-se, mas persistisse na nossa memória as lembranças dos que já se foram, sejam elas boas ou más, na forma de palavras e de atos.

Nesse ambiente antropologicamente quantificado do qual fizemos o planeta, o homem não pode aceitar a dureza da natureza. Concordo com Albert Camus quando ele diz que “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” Há por nossa parte um tipo de recusa à morte.

Penso que o pensamento mítico do homem primitivo tem raízes profundas no medo e no mistério da morte. Desde tempos imemoriais tentamos superar a morte, a não existência. Mas o que poderá superar a morte? Ela é como o corvo de Alan Poe que sempre repete implacavelmente “never more, never more!” Por mais respostas que uma filosofia ou até mesmo as religiões tentem oferecer para a questão da morte, elas nunca chegam a um ponto final, antes disso a morte lambe os pés dos filósofos e religiosos. Não seria mais sábio encarar a realidade da morte sem fugas, sem soteriologias ou “self deception”?

Todavia queremos, podemos de fato fazê-lo? Eis aí a questão para a qual ainda não encontrei peritos. 

Mailson Cabral.

 

Anúncios

Guerra Santa – Gilberto Gil

Belíssima canção do Gilberto Gil, uma crítica ao fundamentalismo religioso e ao discurso dos “salvadores profissionais” da fé. Há referências bem interessantes na letra. Vale a pena refletir sobre essa canção.

Guerra Santa

Ele diz que tem, que tem como abrir o portão do céu
ele promete a salvação
ele chuta a imagem da santa, fica louco-pinel
mas não rasga dinheiro, não

Ele diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus
como um Papa na inquisição
nem se lembra do horror da noite de São Bartolomeu
não, não lembra de nada não

Não lembra de nada, é louco
mas não rasga dinheiro
promete a mansão no paraíso
contanto, que você pague primeiro
que você primeiro pague dinheiro
dê sua doação, e entre no céu
levado pelo bom ladrão

Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé
só que faz da fé profissão
aliás em matéria de vender paz, amor e axé
ele não está sozinho não

Eu até compreendo os salvadores profissionais
sua feira de ilusões
só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz
deixa o outro vender limões

Um vende limões, o outro
vende o peixe que quer
o nome de Deus pode ser Oxalá
Jeová, Tupã, Jesus, Maomé
Maomé, Jesus, Tupã, Jeová
Oxalá e tantos mais
sons diferentes, sim, para sonhos iguais

Alguns acontecimentos que a música faz referência: Massacre da noite de São Bartolomeu http://pt.wikipedia.org/wiki/Massacre_da_noite_de_S%C3%A3o_Bartolomeu;
Pastor da Universal chutando a imagem de Nossa Senhora Aparecida http://www.youtube.com/watch?v=VpPwWEsk0OY

Contra o Reino de Deus

Só se pode falar em liberdade do cristão se ele se livrar do Reino de Deus. Enquanto ele for servo de um monarca celeste, sua liberdade será sempre aviltada em nome do Reino.

Reinos celestes são perversamente mortais: projeta-se a vida e as esperanças num por vir que nunca virá. Suporta-se toda forma de opressão disfarçada em nome do Reino, bem ao modelo do servo sofredor. Espera-se sempre por um salvador que nunca virá, e nessa espera o cristão vai tendo sua vida e vigor tragados pelos mitos, pelos sacerdotes, por Deus…

Um cristão nunca poderá ser livre de fato, a não ser que se liberte do Reino de Deus – condição primeira para a liberdade do cristão.

Rogo-vos, portanto, que vos esqueçais de Lutero, senhores!

Mailson Cabral.

Alguns apontamentos de Edgar Morin sobre a religião

Embora Edgar Morin não seja um pensador específico da área de religião ele possui alguns apontamentos bem pertinentes sobre o tema. Dos livros dele que li quase sempre encontrei algum comentário interessante sobre religião. O que mais me surpreende é a clareza com que ele trata o tema, como fenômeno intrinsecamente humano e tomando sempre o viés do pensamento complexo como paradigma para os seus apontamentos. Na verdade ele até possui um livro específico sobre o tema (Nome de deuses: ninguém sabe o dia que nascerá. São Paulo: Unesp, 2002.), mas ainda não tive a oportunidade de lê-lo.

Penso que quem se dedica a estudar o fenômeno religioso deveria ler Edgar Morin. Ele é indispensável para se pensar o século XXI; os riscos de uma ciência sem consciência; para onde caminhamos como humanidade e a educação na era planetária. Enfim, recomendo Edgar Morin sem pestanejar, você não irá se arrepender.

Eis aqui um quase fichamento dos apontamentos sobre religião e mitos que encontrei na obra dele:

Incluo-me entre aqueles que acreditam na profundidade antropossocial do mito, ou seja, em sua realidade. Acrescento a isso que, entre homo sapiens e o homo demens, ou entre loucura e sabedoria, não existe fronteira nítida. (2005, p.27)

Sob o ângulo da razão fria, o mito foi sempre considerado como epifenômeno superficial e ilusório. Para o século XVIII, a religião representava uma invenção dos padres, uma fraude feita para iludir os povos. Esse mesmo século não soube compreender as raízes profundas da necessidade religiosa e, muito menos, da necessidade de salvação. (2005, p.27)

No século XVIII, durante o Iluminismo, a racionalidade é sobretudo crítica e ela debruça-se principalmente sobre as religiões, consideradas a matéria de que são feitos mitos e supertições. Essa crítica é redutora. Ela ignora o que Marx destacará mais tarde, o fato de que a religião é como o suspiro de uma criatura infeliz, viés pelo qual se expressam as mais profundas aspirações humanas. (2009, p.55)

Creio que a verdadeira racionalidade é profundamente tolerante com respeito aos mistérios. A falsa racionalidade sempre tratou de “primitivas”, de “infantis”, de “pré-lógicas” populações onde havia uma complexidade de pensamento, não apenas na técnica, no conhecimento da natureza, mas nos mitos. (2011, p.118-119)

As atividades de jogo, de festas, de ritos não são apenas pausas antes de retomar a vida prática ou trabalho; as crenças nos deuses e nas ideias não podem ser reduzidas a ilusões ou supertições: possuem raízes que mergulham nas profundezas antropológicas; referem-se ao ser humano em sua natureza. (2002, p.59)

Alimentamos com nossas crenças ou nossa fé os mitos ou ideias oriundos de nossas mentes e esses mitos ou ideias ganham consistência e poder. Não somos apenas possuidores de ideias, mas somos também possuídos por elas, capazes de morrer ou matar por uma ideia. (2008, p.53)

As sociedades domesticam os indivíduos por meio de mitos e ideias, que, por sua vez, domesticam as sociedades e os indivíduos, mas os indivíduos poderiam, reciprocamente, domesticar as ideias, ao mesmo tempo em que poderiam controlar a sociedade que os controla. (2002, p.29)

 

REFERÊNCIAS:

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

 

____________Amor, poesia e sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 2005.

____________Cultura e barbárie europeias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.

____________Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2011.

____________Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002.

 

Mailson Cabral.

Imagem

A literatura como revolta contra o tempo histórico

De modo ainda mais intenso que nas outras artes, sentimos na literatura uma revolta contra o tempo histórico, o desejo de atingir outros ritmos temporais além daquele que somos obrigados a viver e trabalhar. Perguntamo-nos se esse anseio de transcender o nosso próprio tempo, pessoal e histórico, e de mergulhar num tempo “estranho”, seja ele extático ou imaginário, será jamais extirpado. Enquanto subsistir esse anseio, pode-se dizer que o homem moderno ainda conserva um “comportamento mitológico”. Os traços de tal comportamento mitológico revelam-se igualmente no desejo de reencontrar a intensidade com que se viveu, ou conheceu, uma coisa pela primeira vez; de recuperar o passado longínquo, a época beatífica do “princípio”. 

Como era de se esperar, é sempre a mesma luta contra o Tempo, a mesma esperança de se libertar do peso do “Tempo morto”, do tempo que destrói e que mata.[1] 


[1] ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, p.164-165