Por uma hermenêutica da desconstrução

Não se pode construir uma hermenêutica crítica sobre a religião se não começarmos pela desconstrução das formas dogmáticas de se pensar a fé. Digo isso porque em matéria de religião recebemos uma formação hermenêutica de que devemos olhar o mundo sob a ótica da fé, que devemos ver a nossa existência e o surgimento do cosmos como obras do(s) deus(es) que evidenciam na mente do homem religioso o mundo como uma criação divina.

Nossa interpretação do sagrado, pelo menos a nível de estrutura social, se dá pelo o que recebemos como construção cultural. Templos, rituais, crenças e experiências organizam nossa vida e percepção religiosa. Não é comum parar para se questionar sobre o que legitima nossas crenças, por que elas são o que são, a maneira como se organizam e ditam nossa maneira de agir e de pensar. Geralmente o que se faz é se repetir catecismos e procurar maneiras de reorganiza-los e atualizá-los conforme os tempos vão mudando.

Quando se revolve por algum motivo um aprofundamento crítico a respeito das crenças, a ponto de se desgarrar dos dogmas da fé pondo-os em xeque, é inevitável o conflito cognitivo. Percebe-se que a religião faz parte da nossa construção social da realidade, tais como instituições familiares e políticas são criações nossas. Há alguns que diante disso dão meia volta e preferem viver no conforto da pseudoignorância, outros optam por uma descrença generalizada ou em alguns casos preferem viver uma fé não intimista.

Todavia se o que se pretende encarar a religião numa perspectiva crítica não se pode deixar de encara-la como o que ela é: fenômeno humano. O que só é possível pela desconstrução dos conceitos dos dogmas da fé que recebemos. Só a partir daí podemos fazer uma hermenêutica crítica sobre a religião. Para isso o papel principal da hermenêutica deve ser a desconstrução.

Sei que isso atemorizaria muitos líderes religiosos (principalmente os cristãos), pois acaba com o suposto poder que as narrativas míticas investem aos sacerdotes e as suas doutrinas. Porém tenho sérias dúvidas se esse tipo de hermenêutica um dia se tornará popular, o que me leva a crer que ainda veremos por muito tempo o “bom religioso” como massa de manobra, rebanho a ser guiado ao som do shofar.

Mailson Cabral.

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