A igreja teve uma preocupação muito maior em pregar a Jesus, o Cristo, do que a mensagem do Jesus de Nazaré. A própria autoridade da igreja seja de Roma, dos reformados, dos batistas, ou dos pentecostalismos, está alicerçada basicamente na ideia que ela está estabelecida por Deus aqui na terra, que ela é o corpo de Cristo.

Porém é  aqui onde está o vespeiro: esquece-se que o Jesus da fé é construção histórico-cultural dos cristãos, o que se tem por revelação é na verdade invenção da tradição. Até mesmo reconstruir um retrato biográfico de Jesus de Nazaré a partir dos evangelhos é uma coisa complicada, pois eles são leituras de fé das primeiras comunidades cristãs.

Todavia não posso dizer que os evangelhos não contenham nada de verossímil a respeito de Jesus de Nazaré, que tudo é pura ficção.  Isto seria cair num outro extremo. O que temos é uma questão muito delicada, uma vez que há sempre uma carga mística do herói muito forte em torno da figura de Jesus. Ao que podemos chegar a nível de pesquisa é no máximo elaborar hipóteses com as fontes históricas que temos disponíveis a respeito de quem foi Jesus e nisso, queira-se ou não, os evangelhos se fazem indispensáveis.

Mas vamos combinar, tem certas situações no Novo Testamento que Jesus mais parece um super-herói da Marvel do que um ser humano, ainda que, vá lá, filho de Deus segundo a tradição cristã. Assumir que as narrativas evangelísticas são construções mitológicas em torno da figura de Jesus é uma tarefa um tanto complicada para o cristão, pois ele as toma frequentemente como narrativas reais, ainda que num passado bem distante e muitas vezes não tão preciso, porém reais. Tal posicionamento é corroborado por cada sermão que é proferido nos templos e nas casas, em cada reflexão que proclama o senhorio de Cristo e a missão evangelística (leia-se proselitista) da igreja.

Não se pode negar que os mitos tem sua profundidade antropossocial, que constituem uma busca existencial, mas que também comportam a ilusão e alienação nas suas origens. Se a igreja assim tomasse suas narrativas míticas talvez ela deixasse de ser um centro de alienação das massas, mas aí a igreja perderia sua razão de ser, isto é, instituição de adestramento dogmático.

Mailson Cabral.

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