Por que a teologia se tornou imprestável? Porque ela não concerne mais a realidade. Há tempos atrás, não tão distantes quanto parecem, onde deuses e demônios povoavam o imaginário humano com força e representatividade política estatal, ou seja, teocraticamente, a teologia ainda fazia sentido, mesmo com os absurdos que saltam aos olhos nas páginas dos livros de história, pois havia um Deus que mandava e desmandava a seu bel-prazer, justificavam-se as ações do monarca como vontade divina.

Acontece que o Deus, o velho monarca, perdeu muito da sua força de outrora com o advento da modernidade, pelo menos como chefe de Estado. Com a concepção moderna de democracia no século XVIII a derrubada das monarquias absolutistas pela burguesia foi inevitável. Os homens deixaram de ser súditos para se tornarem cidadãos. Com a consolidação dos primeiros estados democráticos modernos, Estado e igreja são finalmente separados, o Deus cristão perde poder.

Com Deus banido como “senhor” da esfera política mudanças que já estavam em curso começam a se evidenciar com mais força: a ruptura com a própria ideia de Deus, pois ele já não se adéqua a esse novo contexto. Não é toa que Nietzsche declara a morte de Deus: a influência da religião é cada vez menor na vida do homem moderno, a secularização coloca Deus para a esfera do privado, não mais como expressão do vigor e força dos povos.

Dado que o objeto de estudo da teologia clássica está morto, ou melhor, em avançado estado de decomposição, tenho a impressão que muitos teólogos não passam de necromantes. A teologia clássica, isto é, sistemática, dogmatizada, bibliolátrica, feita pelos teólogos para os templos se tornou imprestável. Houve tentativas de atualizar a teologia com autores como Barth, Moltmann, Tillich e outros que perceberam a decadência da teologia, todavia tudo continua a girar em torno do cadáver do velho Deus, embora alguns mais liberais insistam o contrário.

O fato é que a teologia é antropologia, como bem denunciou Feuerbach. Logo, o objeto de estudo da teologia, Deus, é um objeto falsificado, pois no fim das contas estamos a falar dos homens com suas máscaras de Deus e seus discursos sobre ele. Não há para onde correr, o centro da questão é demasiadamente humano, não há como fugir disso. Se a teologia for posta cruamente nestes parâmetros das duas uma: ou ela se desintegra ou entra em metamorfose, isto é, converte-se as ciências humanas.

Aos olhos de muitos teólogos isso parece uma perversão, pois aí morre o moralismo da teologia cristã e sua capacidade de evocar fundamentos ontológicos para a sua razão de ser. É um verdadeiro ataque ao epicentro cristão: o dogma.

Para que a teologia assuma uma postura consciente de si, sem a hipocrisia sacerdotal, é necessário ela assumir sua condição humana, e não fingir ser o que não é. Talvez então possamos chamar a teologia de reflexão sobre a fé a luz da racionalidade crítica.

Todavia já se passaram mais de 110 anos desde que Nietzsche e Feuerbach fizeram suas denuncias, mas os teólogos não entenderam a mensagem, continuam a carregar o cadáver do seu deus nas costas.

Mailson Cabral.

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