Fragmentos (II)

I

O mundo para o crente se divide basicamente entre cristãos e não-cristãos. Nenhuma segregação se mostrou tão perversa quanto essa na história da humanidade dada a extensão da barbárie social e da violência simbólica gerada pelo dogmatismo cristão.

II

Eis o que a religião é: devaneio. Um cálice cheio de devaneio dos mitos é o que ela é, dela os homens se embebedam e se lançam na devoção, no transe, no êxtase, na orgia, na loucura. É o homo ludens que se manifesta em todo o seu vigor e fervor. É um erro da razão dita esclarecida achar que pode banir a existência de sua gêmea ludens,  que a pode tratar de maneira asséptica, livre do que a envergonha.  A racionalidade habita entre a sapiência e a demência.

III

Definição clássica para o cristianismo: utopia de características totalitárias.

IV

Assumimos narrativas míticas para conferir sentido as nossas vidas, não há como escapar disso, sejam essas narrativas religiosas, políticas, ou mesmo éticas, nos guiamos por mitos que criamos e valorizamos. Só por isso se pode falar em sentido da existência, pois criamos um, e por ele nos guiamos.

Mailson Cabral.

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O Jesus desconhecido

A igreja teve uma preocupação muito maior em pregar a Jesus, o Cristo, do que a mensagem do Jesus de Nazaré. A própria autoridade da igreja seja de Roma, dos reformados, dos batistas, ou dos pentecostalismos, está alicerçada basicamente na ideia que ela está estabelecida por Deus aqui na terra, que ela é o corpo de Cristo.

Porém é  aqui onde está o vespeiro: esquece-se que o Jesus da fé é construção histórico-cultural dos cristãos, o que se tem por revelação é na verdade invenção da tradição. Até mesmo reconstruir um retrato biográfico de Jesus de Nazaré a partir dos evangelhos é uma coisa complicada, pois eles são leituras de fé das primeiras comunidades cristãs.

Todavia não posso dizer que os evangelhos não contenham nada de verossímil a respeito de Jesus de Nazaré, que tudo é pura ficção.  Isto seria cair num outro extremo. O que temos é uma questão muito delicada, uma vez que há sempre uma carga mística do herói muito forte em torno da figura de Jesus. Ao que podemos chegar a nível de pesquisa é no máximo elaborar hipóteses com as fontes históricas que temos disponíveis a respeito de quem foi Jesus e nisso, queira-se ou não, os evangelhos se fazem indispensáveis.

Mas vamos combinar, tem certas situações no Novo Testamento que Jesus mais parece um super-herói da Marvel do que um ser humano, ainda que, vá lá, filho de Deus segundo a tradição cristã. Assumir que as narrativas evangelísticas são construções mitológicas em torno da figura de Jesus é uma tarefa um tanto complicada para o cristão, pois ele as toma frequentemente como narrativas reais, ainda que num passado bem distante e muitas vezes não tão preciso, porém reais. Tal posicionamento é corroborado por cada sermão que é proferido nos templos e nas casas, em cada reflexão que proclama o senhorio de Cristo e a missão evangelística (leia-se proselitista) da igreja.

Não se pode negar que os mitos tem sua profundidade antropossocial, que constituem uma busca existencial, mas que também comportam a ilusão e alienação nas suas origens. Se a igreja assim tomasse suas narrativas míticas talvez ela deixasse de ser um centro de alienação das massas, mas aí a igreja perderia sua razão de ser, isto é, instituição de adestramento dogmático.

Mailson Cabral.

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Porque amo escrever

É justamente na escrita que se encontrar meu prazer e terapia. Colocar as ideias no papel, juntar as letras que vão dando forma às palavras que tornam as minhas ideias comunicáveis é uma experiência que transcende o texto crítico-argumentativo, é um fluxo de consciência que se faz por meio da linguagem que me eleva de alguma maneira do tempo comum, quase uma experiência religiosa, todavia destituída de divindade(s).

Escrever se tornou uma necessidade para mim, a questão de compartilhar publicamente alguma coisa é secundária, o importante é escrever.  Aqui no blog está uma parcela que versa sobre religião, também escrevo sobre outros temas, prometo postar algo futuramente.

Penso que nunca poderei explicar plenamente a realização do que é escrever para mim, a linguagem escrita é uma extensão do que sou, há sangue nas coisas que escrevo e é exatamente por isso que amo escrever. Tomo aqui a ousadia de dizer que sou um escritor, digo isso não por vaidade, mas porque sem a escrita uma parte preciosa estaria perdida, algo que nunca teria descoberto: a minha voz. Faço-me acessível a mim mesmo e a quem se identifique com o que escrevo.

Parafraseando Edgar Morin, eis outra coisa que sou além de escritor: navegante, um navegante em um oceano de incertezas, entre arquipélagos de certezas.

Mailson Cabral.

Sobre a crença e a descrença – uma visão pessoal

A crença ou a descrença em deus(es) não é o problema pra mim. Você pode crer no que quiser, digo isso sem ressentimentos. Tanto faz pra mim se são em orixás, espíritos, anjos, kamis ou até em unicórnios, o que importa é o que se quer fazer com os outros por causa das crenças. Converter, humilhar, demonizar, ou segregar, nessas coisas é que mora o problema que tenho com as religiões, em especial o cristianismo, e para ser bem mais específico pentecostal/neopentecostal.

Meu problema com a ideia de deus no cristianismo é que não penso que ele seja o tipo de coisa boa ou justa em si, para mim a questão é sempre que estamos a falar da nossa subjetividade, do nosso reflexo no espelho, só que um reflexo institucionalizado, recortado e posto em moldura. Querer fazer disso uma regra de vida me parece não só estranho como de pouco bom senso e até mesmo indecente.  Dirijo o termo indecência aos que sabem o que deus é tratam a questão como se não soubessem. Não posso me curvar a esse comportamento de camelo que é explorado pelos seus próprios mitos. Reconheço o valor histórico dos mitos assim como sua importância numa perspectiva existencial, mas esse não é o tipo de consciência que chega às ruas, ou melhor, aos bancos e púlpitos. O que nos chega é que sempre são necessários intermediários entre os deuses e os homens – a saber, os sacerdotes.

No que tange a religião, objetivo e subjetivo se misturam na experiência e vida religiosa, atribuímos uma porção de acontecimentos concretos, chuva, colheita, passar no vestibular, escapar de um acidente de carro as divindades que cremos. A conexão entre objetivo e subjetivo se dá de tal maneira na mente do crente que fica difícil de pensar em algum tipo racionalidade da fé com um sujeito religioso muitas vezes. Acho que por isso quando leio ou escuto alguém falar sobre inteligência da fé é como se fosse uma contradição de termos para mim.

Minha descrença com a religiosidade cristã se dá pela incapacidade que vejo nela de reconhecer seus mitos como mitos, de ver a institucionalização do sagrado como elemento catalisador da alienação religiosa e da sua incapacidade autocrítica. Apenas observo de longe a movimentação dos templos, bem de longe, pois perdi a paciência para repetir as cartilhas de fé.

Levo comigo esse pensamento separatista e herético quando penso nas questões de fé: Que cada homem siga o seu caminho e descubra o que são os seus deuses e do que eles são feitos e então siga o seu caminho, acreditando no que quiser acreditar, mas ciente das coisas que crê.

Mailson Cabral.

Por que a teologia se tornou imprestável?

Por que a teologia se tornou imprestável? Porque ela não concerne mais a realidade. Há tempos atrás, não tão distantes quanto parecem, onde deuses e demônios povoavam o imaginário humano com força e representatividade política estatal, ou seja, teocraticamente, a teologia ainda fazia sentido, mesmo com os absurdos que saltam aos olhos nas páginas dos livros de história, pois havia um Deus que mandava e desmandava a seu bel-prazer, justificavam-se as ações do monarca como vontade divina.

Acontece que o Deus, o velho monarca, perdeu muito da sua força de outrora com o advento da modernidade, pelo menos como chefe de Estado. Com a concepção moderna de democracia no século XVIII a derrubada das monarquias absolutistas pela burguesia foi inevitável. Os homens deixaram de ser súditos para se tornarem cidadãos. Com a consolidação dos primeiros estados democráticos modernos, Estado e igreja são finalmente separados, o Deus cristão perde poder.

Com Deus banido como “senhor” da esfera política mudanças que já estavam em curso começam a se evidenciar com mais força: a ruptura com a própria ideia de Deus, pois ele já não se adéqua a esse novo contexto. Não é toa que Nietzsche declara a morte de Deus: a influência da religião é cada vez menor na vida do homem moderno, a secularização coloca Deus para a esfera do privado, não mais como expressão do vigor e força dos povos.

Dado que o objeto de estudo da teologia clássica está morto, ou melhor, em avançado estado de decomposição, tenho a impressão que muitos teólogos não passam de necromantes. A teologia clássica, isto é, sistemática, dogmatizada, bibliolátrica, feita pelos teólogos para os templos se tornou imprestável. Houve tentativas de atualizar a teologia com autores como Barth, Moltmann, Tillich e outros que perceberam a decadência da teologia, todavia tudo continua a girar em torno do cadáver do velho Deus, embora alguns mais liberais insistam o contrário.

O fato é que a teologia é antropologia, como bem denunciou Feuerbach. Logo, o objeto de estudo da teologia, Deus, é um objeto falsificado, pois no fim das contas estamos a falar dos homens com suas máscaras de Deus e seus discursos sobre ele. Não há para onde correr, o centro da questão é demasiadamente humano, não há como fugir disso. Se a teologia for posta cruamente nestes parâmetros das duas uma: ou ela se desintegra ou entra em metamorfose, isto é, converte-se as ciências humanas.

Aos olhos de muitos teólogos isso parece uma perversão, pois aí morre o moralismo da teologia cristã e sua capacidade de evocar fundamentos ontológicos para a sua razão de ser. É um verdadeiro ataque ao epicentro cristão: o dogma.

Para que a teologia assuma uma postura consciente de si, sem a hipocrisia sacerdotal, é necessário ela assumir sua condição humana, e não fingir ser o que não é. Talvez então possamos chamar a teologia de reflexão sobre a fé a luz da racionalidade crítica.

Todavia já se passaram mais de 110 anos desde que Nietzsche e Feuerbach fizeram suas denuncias, mas os teólogos não entenderam a mensagem, continuam a carregar o cadáver do seu deus nas costas.

Mailson Cabral.