Arquivo | janeiro, 2014

Um pouco da nossa cosmologia

30 jan

“O Sol brilha à temperatura da sua explosão. A vida organiza-se à temperatura de sua destruição. O homem talvez não se tivesse desenvolvido se não lhe fosse preciso responder a tantos desafios mortais, desde o avanço da savana sobre a floresta tropical até a glaciação das regiões temperadas. A aventura da hominização deu-se em meio à penúria e ao sofrimento. Homo é filho de Poros e Penia. Tudo o que vive deve regenerar-se incessantemente: o Sol, o ser vivo, a biosfera, a sociedade, a cultura, o amor. É nossa constante desgraça e também é nosso privilégio: tudo que há de precioso na terra é frágil, raro e destinado a futuro incerto. O mesmo acontece com a nossa consciência.

Assim, quando conservamos e descobrimos novos arquipélagos de certezas, devemos saber que navegamos em um oceano de incertezas.”[1]

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[1] MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, p.58-59.

É necessário repensar a fé

28 jan

A igreja é uma domesticadora de homens. Por meio dela o homem é catequetizado/evangelizado, fica manso, recebe todo preparo para ser uma boa ovelha, ter o comportamento de rebanho. A religião institucionalizada assume os contornos e símbolos mitológicos do humano e os transformam em imperativos que justificam a necessidade de sua própria existência e manutenção. Tornar-se poderosa por meio da apropriação dos símbolos religiosos. Não que não hajam símbolos criados pela instituição, mas a simbologia religiosa precede a institucionalização religiosa, são arquétipos. O problema é que eles estão orientados sob a lógica da instituição que é sempre uma lógica de autopreservação e de poder. Os mitos  instrumentalizados ficam a serviço do aparelho eclesiástico.

Por isso não temo dizer que a igreja ensina o homem fundamentalmente a ficar sob o cabrestro, sempre. Não importa se seja nas mãos de um deus impassível e volátil ou mesmo de um deus bondoso e amoroso. O que importa é manter a condição de servo. Dessa maneira é muito mais fácil de montar sobre o homem. Não é difícil ver isso também na política, basta olhar os exemplos dados a torto e a direito da bancada evangélica que defende “a moral e os bons costumes cristãos”, costumes esses, sublinhe-se, de alienação e repressão.

Todavia a manipulação não é tão explícita como em outros séculos, não em termos coercivos para com os “hereges”. Todavia há sempre um ranço de fogueiras por detrás de muitos discursos inflamados de líderes religiosos que mais parecem um coquetel molotov prestes a explodir.

Uma vez dominando a massa, a instituição não abre mão do controle sobre os fiéis. Enquanto ela poder controlar, vigiar e punir ela o fará, ainda que sob diferentes roupagens no seu discurso e nas suas práticas catequéticas e proselitistas.

Nesse contexto, a compreensão da religião como fenômeno humano é a única ferramenta capaz de quebrar os poderes imperativos da instituição sobre os fieis. O que significa uma tomada de consciência a nível individual

A emancipação da institucionalização da fé faz-se necessária para se repensar a religião, partir de uma reflexão crítica que conduza a autonomia do sujeito religioso diante de suas crenças. Trata-se de repensar a própria fé, os fundamentos das crenças. O reconhecimento que estamos sujeitos as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão, e a religião não escapa a essa regra.

Só assim a fé religiosa pode então ser aceitar a sua condição de aposta, e não mais de certeza, pois quando a fé é tomada como certeza ela nos cega e, não raro, leva-nos a um desastre existencial e desperdício da vida.

Cabe ao sujeito religioso doravante conduzir sua fé heuristicamente, isto é, interrogando, dialogando, criticando e interpretando suas crenças de maneira madura e autônoma. Do contrário, ele ainda há de se viver um bom tempo no medievalismo da fé.

                Mailson Cabral.

Fazedores de deuses

23 jan

Nós, seres humanos, somos eternos fazedores de deuses. A eles dirigimos nossas súplicas, fazemos sacrifícios, edificamos altares. Por eles dançamos lutamos, vivemos e morremos.

Criamos todos os deuses, sim, todas as formas de divindades e ritos são invenções nossas, seja no culto aos ancestrais, aos poderes da natureza ou aos espíritos. Nas experiências estáticas, na romaria, na vela que se acende, na reza, na lágrima derramada… seja na sapiência ou na demência dos nossos mitos sempre somos nós, sempre.

Como bem disse certa vez o Rubem Alves: “Lição feuerbachiana: substitua-se a divindade do substantivo próprio pela divindade do sujeito humano e teremos a verdade”[1].

Quando descobrimos que os mitos são mitos, não mais que isso, o encanto deles se quebra para quem vive na dimensão da crença religiosa. Diante disso  restam dois caminhos para o sujeito religioso:

1º) Aceita que os seus mitos são mitos e não incomoda o seu vizinho que tem mitos diferentes dos seus, abandona pretensões proselitistas e intolerantes com o credo alheio;

2º) Assume uma postura de descrença diante dos mitos, vive a sua vida independente deles, mantendo o respeito pelos que tem os seus credos, porém nunca aceitando as arbitrariedades feitas em nome de deus(es).

Seja qual for o rumo que se escolha há de se assumir as responsabilidades, eis aí um critério inalienável para uma sociedade democrática.  Todavia o homo sapiens tem se mostrado mais do que nunca um completo homo demens no que concerne a religião. A nossa capacidade racional é frequentemente usada como arma bélica contra a religião alheia ou mesmo contra os sem religião. Às vezes temo que caminhemos em nossos dias muito mais para um abismo fundamentalista do que para um lugar de diálogo.

Parece-me que continuamos famintos por sangue e tripas. Prosseguimos  a matar e a morrer pelos nossos deuses. Continuamos insaciáveis.

Mailson Cabral.


[1] ALVES, Rubem. Dogmatismo e tolerância. São Paulo: Edições Paulinas. 1ed. 1982, p. 102-103.

Sobre as religiões

20 jan

“Religiões são como mesas de banquetes: tudo está preparado e há desde pratos rigorosamente destinados às dietas vegetarianas até as gorduras chamuscadas nas brasas para aqueles que gostam de carne… E os fieis se aproximam, cada qual com seu pratinho, e escolhem… Veja, observe! Já vão saindo com os seus pratos cheios. Os lobos, os inquisidores e os caçadores de bruxas trazem nos seus pratos coisas que não se encontram nos pratos dos cordeiros e das vítimas… Escolheram as ideias que mais apeteciam aos seus paladares e menos ofendiam aos seus estômagos.”[1]


[1] ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Edições Paulinas,1982, p.10-11.

Vídeo

Estas Tonne e sua hipnótica música

16 jan

Esse é o tipo de música que tem a capacidade de nos arrebatar na nossa frenética vida urbana. Qualquer analogia com uma experiência hierofânica ao escutar essa melodia não é mera coincidência.

Religião e diálogo

15 jan

Tenho muita dificuldade em acreditar num diálogo inter-religioso. Digo isso não porque ache difícil ou mesmo impossível colocar em diálogo diferentes vertentes religiosas.  Com efeito, isso até acontece em nossos tempos, o problema é que esse diálogo não ultrapassa os níveis retóricos – essa coisa bem bonita e polida que fazemos na universidade. Fora das quatro paredes da academia o bicho pega. Ações para que o diálogo se efetive fora dos confortáveis espaços acadêmicos é o que constitui o grande desafio.  E aqui esbarramos num problema para efetivação disto aqui no Brasil: nossa herança fundamentalista cristã. Estamos impregnados dela culturalmente, tanto em nossos discursos como em nossas práticas religiosas. A demonização das formas religiosas alheias é comum ao cristianismo, seja ele de vertente católica, protestante ou pentecostal – e de forma mais acentuada nesta última atualmente.

Apesar das diferenças, quando se trata de combater “inimigos” comuns, os fundamentalistas estão unidos. Penso que não seria exagero meu dizer que o ódio ao diferente, ao que contraria as retas doutrinas seja o elemento agregador por trás do discurso fundamentalista cristão.

Posso está incorrendo no erro de ser generalista aqui dada às peculiaridades dos diversos segmentos religiosos, mas não consigo enxergar as religiões sem o elemento do fundamentalismo como parte delas, é como se fosse um cimento que alicerça os fieis as crenças. Acredito que as raízes do fundamentalismo tem um “ancestral” comum, algo que precede a religião.

Penso que a raiz do fundamentalismo está no pensamento fechado, racionalizado, incapaz de reconhecer o erro e a ilusão dentro de si. E essa postura é uma postura suscetível a todos de nossa espécie, e isso não somente na religião[1]. O problema é que ninguém quer ser identificado como um fundamentalista em potencial. Nem os próprios fundamentalistas.

A presença desse potencial fundamentalismo humano é clarividente nas religiões, principalmente quando se trata das institucionalizadas, como é o caso do cristianismo. Um dos pontos de partida para o diálogo inter-religioso, penso eu, é justamente o reconhecimento desse fundamentalismo e o combate a ele, juntamente com a formação da consciência crítica dos sujeitos religiosos[2].

Sem esses dois pontos inegociáveis a meu ver, não haverá a efetivação do diálogo religioso em nossas terras tupiniquins.

Mailson Cabral.


[1] Sugiro a leitura do livro “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, de Edgar Morin. Indico principalmente o primeiro capítulo, “As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão”.

Fragmentos

10 jan

I

As pessoas precisam de muitas certezas para viver, uma das mais comuns na nossa cultura ocidental judaico cristã é a crença em Deus. Convencionou-se sacerdotalmente crer nele como o senhor todo poderoso sobre os homens.

Toda forma de ceticismo abertamente declarada contra esse pressuposto sempre foi vista historicamente com maus olhos – para não dizer com ânsias de fogueiras.

A respeito desse Deus basta-me a dúvida, do restante eu dou cota e vou me arranjando pela vida.

II

Criamos tantas divisões entre nós, divisões econômicas, sociais, étnicas para nos sentirmos especiais, mas esquecemos que só somos primatas com alguns neurônios a mais.

III

Sei que diversos fatores históricos e culturais levaram a nós, cristãos ocidentais, a crença num deus único. Não se muda o passado histórico, é um fato consumado. Acho que o medo, o medo próprio do ser humano, em sua complexidade biocultural é um dos fatores capitais para a crença em deus(es), espíritos e toda a sorte de entidades místicas. Penso que todas elas são produtos da nossa incrível capacidade criativa, e ainda uma forte marca do nosso ancestral homo faber. Ele inventou as ferramentas, também inventou uma ferramenta para criá-lo.

IV

O espírito pesa-me, preciso outra vez tornar-me leve outra vez. Acima do túmulo dos deuses e das loucas doutrinas preciso estar. Preciso voar. Preciso dançar. Dançar sobre os escombros do mundo em caos ao som dos tamborins, sobre o universo em chamas. Dançar até que tudo vire cinzas, até que tudo se faça pó, e então renasça outra vez.

Mailson Cabral.