Arquivo | dezembro, 2013

Do direito a crença

28 dez

Cada indivíduo tem o direito de crer no que quer: deus(es), orixás, kamis, fadas, espíritos, unicórnios, papai Noel, ou de não crer em nada disso. Defendo o direito inalienável as crenças sejam quais forem. Todavia acredito que sem o conhecimento crítico sobre o que se crê, o fiel se torna cavalo de montaria das doutrinas, ou seja, um alienado.

O que acabei de afirmar me deixa numa situação paradoxal: é possível o religioso, o crente fiel (eufemismo para fundamentalista), assumir uma postura crítica diante de sua própria fé? Para ser honesto, tenho que admitir que em muitos casos não. É necessário que haja uma abertura por parte do fiel para questionamentos, um cultivo de certo ceticismo diante de suas próprias crenças. Essa disposição é fundamental para até mesmo falar de direito as crenças e não imposição de crenças. Só assim pode-se começar a pensar de fato em respeito e diálogo inter-religioso.

Mailson Cabral.

Imagem

Dois meses de blog!

28 dez

Dois meses de blog!

Hoje é aniversário do blog, na verdade há postagens aqui com um pouco mais de dois meses, porém só comecei a divulgar a página mesmo em 28 de Outubro.
Recebi este presente da amiga Raquel Melo faz alguns dias, mas resolvi postar hoje. A propósito, foi ela também quem fez o layout do blog. Tenho uma grande sorte dos “deuses” terem me favorecido com uma amiga assim!

Mailson Cabral.

Obs: Este é o link para a fan page do blog: https://www.facebook.com/temploetaverna?ref=hl

Para não dizer que não falei sobre o Natal

24 dez

Relutei um pouco antes de postar algo sobre o Natal. Digo isto não por causa do meu ceticismo a respeito dos símbolos cristãos ou por medo de ferir a algum doce sentimento infantil que muitos nutrem por essa data, mas por pelo fato dessa época ser o topo da alienação no mundo cristão, só comparável à páscoa.

Na verdade não escreverei nada sobre o Natal, apenas compartilho a letra de uma música que encontrei há um tempo. Penso que seja uma reflexão válida para as comemorações natalinas.

Corre Jesus, corre![1]

Jesus ficou o ano todo trancado em um armário.

Hoje o tiraram porque está chegando o Natal;

Passaram nele o espanador, o lavaram, o enfeitaram e cobriram

seu corpo de papéis coloridos.

Puseram-no na árvore com estrelas e velas entre

guirlandas e neve feitas de fibra de vidro.

Agora a família se distrai com o álcool, Jesus desce

da árvore e escapa pela janela!

Corre, Jesus, corre, para as pessoas não te alcançarem!

Que não te aconteça o que já te aconteceu!

Jesus escapa do templo onde o sacerdote o mantém

preso e o vendedor de Bíblias o oferece em doze parcelas…

Jesus escapa das senhoras que fazem pedidos,

dos senhores que só lembram dele somente na igreja,

da tristeza do trabalhador, do tédio do patrão, dos gordos…

de barba de algodão que distribuem idiotices e nozes,

dos falsos profetas que acalmam a consciência

dos ladrões nos salões, dos chorões que o crucificam a

cada ano.

Jesus escapa pela estrada em busca de uma nova Maria,

para refugiar-se em seu seio e se salvar desta sociedade medíocre!

Corre, Jesus, corre, para pessoas não te alcançarem!

Que não te aconteçam o que já te aconteceu!

Link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=9-3_LSibTs8


[1] Trecho da música “Corre, Jesus, corre”, Facundo Cabral in PADILLA, C. René. O que é missão integral? Viçosa: Ultimato, 2009, p.22.

Finalmente, o que é um dogma?

17 dez

Algumas pessoas parecem geralmente não entender bem o que quero dizer com a palavra dogma. Tentarei explicar de uma maneira simples o que entendo por dogma dentro do contexto religioso.

O dogma é o ponto básico de uma doutrina religiosa. É impassível de contestação. Ao conjunto dos dogmas dar-se o nome de doutrina. Há quem defenda que existem doutrinas não dogmáticas, mas experimente contestá-las para que elas mostrem o quão dogmáticas são.

Sobre a doutrina dos dogmas se estruturam as instituições religiosas e sobre eles justificam sua autoridade, necessidade e poder. A própria noção de fé (como catequese/ensino) se dá através dos dogmas, na crença neles. Os dogmas são formados a partir dos fechamentos ideológicos de um determinado grupo. Funciona, a princípio, como um elemento agregador, conferindo unidade ao grupo, mas logo se converte em elemento segregador resultante do seu natural fechamento.

Os dogmas se alimentam basicamente da fé e do desejo de poder do ser humano. Constituem verdadeiras possessões, por eles podemos ser arrastados e manipulados também. Tais possessões são frutos das nossas racionalizações, uma armadilha da nossa própria razão.

Eis aqui alguns exemplos de dogmas:

  • A virgindade perpétua de Maria
  • As 5 solas da reforma protestante
  • Ressurreição de Cristo
  • A doutrina da Trindade

Pode ser que algum desavisado se choque com isso, mas esses exemplos são dogmas, queira você goste ou não. Particularmente, acredito que os dogmas são muito nocivos a saúde psíquica das pessoas, pois as aprisionam num sistema de crenças que por vezes chega a ser cruelmente alienante.

Já escutei algumas pessoas do alto da sua espiritualidade (ou seria insanidade?) dizerem que os dogmas da fé são libertadores! Os dogmas são incapazes de libertar pessoas, muito pelo contrário, “no dia que dogmas libertarem, porcos irão voar”, disse uma amiga certa vez. Até hoje não encontrei porcos alados.

Mas tenho que admitir uma coisa: falo por demais em dogmas e doutrinas, o que pode parecer algumas vezes meio chato e repetitivo da minha parte, mas insisto nisto. Penso que ainda há muita gente que não sabe o que os dogmas são, como são formados e quem são os que manipulam eles. Se sabendo de tudo isso o indivíduo ainda sim fizer questão de se manter no mesmo teatro da fé, tudo bem, é uma escolha, e dessa vez bem consciente. Mas acredito que as igrejas e demais centros religiosos que possuímos estariam bem mais vazios.

Mailson Cabral.

Image

Edgar Morin e seus três parágrafos de tirar o fôlego sobre o cristianismo!

13 dez

Uma rápida, porém intensa e incisiva visão da barbárie produzida pelo cristianismo ao longo dos séculos na visão de Edgar Morin.

“O Império Romano se caracterizava, antes do cristianismo, pela tolerância religiosa. Os cultos mais diversos, inclusive o culto dos deuses da salvação, tais como Osíris, Mithra, e também o orfismo, eram perfeitamente aceitos. O monoteísmo judeu, e em seguida o cristão, trouxe, juntamente com o seu universalismo potencial, a sua intolerância específica – que eu chamaria de barbárie específica -, fundada sobre o monopólio da verdade da sua revelação. Com efeito, o judaísmo não podia senão conceber os deuses romanos como ídolos sacrílegos. E o cristianismo, com o seu proselitismo universalista, viria apenas a acentuar essa tendência. Enquanto o judaísmo tinha a possibilidade de se manter isolado, nessa aliança privilegiada que acreditava manter com Deus, o cristianismo procurou destruir os outros deuses e as outras religiões. Além disso, o seu reconhecimento como única religião do Estado levou ao fechamento da escola de Atenas, pondo fim, desse modo, a toda a filosofia autônoma.

Uma das armas da barbárie cristã foi a utilização de Satanás. Obviamente, é preciso ver nessa figura o separador, o rebelde, o enganador, o inimigo mortal de Deus e dos humanos. Aquele que se opuser e que não quiser renunciar  à sua diferença fatalmente estará possuído por Satanás. Essa máquina argumentativa delirante foi uma das formas encontradas pelo cristianismo para exercer sua barbárie. É bem verdade que a arma satânica não é exclusividade do cristianismo. Vemos hoje claramente o quanto a imagem de Satanás surge mais do que nunca no virulento discurso islâmico.

E mesmo quando surgiram no interior do cristianismo triunfante correntes de pensamento divergentes da mensagem de origem, em vez de tolerá-las, ele reagiu, elaborando uma ortodoxia impiedosa, denunciando os desvios como heresias, perseguindo e destruindo com ódio, em nome da religião do amor[1]”.


[1] MORIN, Edgar. Cultura e barbárie europeias. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p. 20-21

Alguma teologia? (II)

11 dez

Se a teologia fosse à reflexão sobre a fé à luz da racionalidade crítica eu até poderia ser um teólogo. Todavia, o que vejo é algo bem diferente disso. Fico eu só a olhar pela janela, bem de longe, esta estranha que passeia pelos templos e seminários.

Mailson Cabral.

Alguma teologia?

10 dez

Não sou teólogo. Acho que nunca poderei ser um de fato, não a serviço da igreja ou algum tipo de confissão teológica. Desde que percebi que a maioria esmagadora dos teólogos está a serviço das doutrinas dos dogmas do que com um compromisso de análise crítica da Bíblia e a dar maior valor a ideologias (sejam elas católicas, protestantes, pentecostais etc.) do que as pessoas, não pude mais pensar em me tornar um teólogo.

Neste jogo a manutenção da glória e do poder de Deus é mais importante do que qualquer outra coisa. Os teólogos têm suas luvas brancas sujas de sangue. Ajudam a manter o crime de lesa consciência do crente, contribuem para que as interpretações alegóricas da Bíblia se tornem cada vez mais refinadas, mantendo sempre o grande frenesi da fé. Aos escribas do templo cabe continuar a tradição, ensinam e interpretam as coisas da lei (tradição).

“É bem mais cômodo manter as indecências ou fazer vista grossa do que denunciá-las”, pensa o bom teólogo, e continua ele a prestar o seu grande desserviço histórico à humanidade.

Mailson Cabral.