Arquivo | novembro, 2013

Tolerância ou compreensão da condição humana?

27 nov

O fundamentalismo seja de qual tipo for, religioso, político ou étnico, é o maior entrave para qualquer tipo de convivência pacífica. A ideia de que um único pensamento é correto, não importando o que o outro diga, é no mínimo perversa. O grupo que si diz de posse da verdade incondicionada sempre considerará que os que não estão dentro da sua visão como pouco esclarecidos que precisam ser conquistados (e ai começa o proselitismo e uma fobia incrível ao diferente), ou se fecham em sua pequena ilha de crenças, esquecendo-se do resto do mundo.

Mas isto foi coisa do passado, vivemos no século XXI, sociedade pós-moderna, pluralista, tolerante… Sei.

A propósito, tenho sérios problemas com o uso da palavra tolerância. Penso que a palavra tolerância possui um tom implícito de preconceito. Soa como complacência com o outro, basicamente aturar o diferente, pois é o jeito. Como não há possibilidade de escapar de certos ciclos de convivência o jeito é tolerar mesmo. Afinal de contas, somos civilizados, adultos, maduros e educados, temos que manter as aparências. “Devemos”, portanto, ser tolerantes.

A tolerância não ensina a compreensão, o que imprescindível para um combate efetivo aos fundamentalismos. Entender a condição humana passa por compreender que o homo sapiens que somos também é homo demens ao mesmo tempo; que racionalidade e irracionalidade permeiam a formação de nossas ideias, e isto sem o uma ordem clara; que o ser humano é um composto de indivíduo/sociedade/espécie – que somos um poço profundo de complexidade[1].

Penso que a ideia de tolerância não seja via para uma convivência que aponte para algum tipo de pacifismo real, mas o ensino da compreensão da condição humana pelo menos nos leva a entender as diferenças do outro sem demonizá-lo ou pintar caricaturas ao seu respeito, entender que no outro existe alguém que não é tão diferente de mim.  Penso que a partir daí é possível desenvolver um diálogo que aponte para uma humanização das nossas relações.

Mailson Cabral.


[1] Para uma introdução desta visão, é indispensável a leitura de  “Os sete saberes necessários á educação do futuro”, de Edgar Morin. O autor desenvolve com maestria no livro, principalmente no terceiro capítulo, a questão antropobiológica do homem.

Algumas leituras

21 nov

Sou dos que acreditam que a verdadeira educação vem pela emancipação do pensamento, a quebra da consciência subalterna e a tomada de consciência crítica dos indivíduos.  A partir daí tomei o rumo das minhas leituras. Leituras estas muito importantes para as ideias que exponho aqui no blog. Aqui vão alguns livros que fizeram minha cabeça neste ano:

ALVES, Rubem. Dogmatismo e Tolerância. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

_____________ Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. São Paulo. Edições Loyola, 2003.

_____________ O que é Região. São Paulo: Brasiliense, 1982.

COMBLIN, José. Quais os desafios dos temas teológicos atuais? São Paulo: Paulus, 2005.

EHERMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? : quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.

GAARDER, Jostein. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.

_____________  Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2011.

_____________ Os sete saberes necessários á educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Petrópolis: Vozes, 2011.

_____________  O Anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2012.

_____________ O crepúsculo dos ídolos, ou, como se filosofa com o martelo. Porto Alegre: L&PM, 2012.

SAGAN, Carl. O romance da ciência. São Paulo: Francisco Alves, 1982.

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo. Cortez Editora, 1983.

ZABATIERO, Júlio. Manual de Exegese. São Paulo: Hagnos, 2007.

Some tudo isso a um sem fim de artigos lidos, documentários, entrevistas assistidos e muitos, mais muitos questionamentos. Bem, deste caldeirão de informação e conhecimento emergiu o Templo e Taverna, ainda tímido, mas capaz de morder o calcanhar de algum desavisado.

Mailson Cabral.

OBS: Tem alguns blogueiros que também são muito importantes para mim:

Jones F. Mendonça

http://numinosumteologia.blogspot.com.br/

Nelson Costa Jr

http://nelsoncostajr.com/

Osvaldo Luiz Ribeiro

http://peroratio.blogspot.com.br/

Sostenes Lima

http://www.sosteneslima.com/

Vestígios de um cristianismo

19 nov

Já faz um tempo que abandonei uma posição ortodoxa da fé cristã e seus conceitos teológicos sobre Deus, o mundo e o homem. Essa tendência de encarar a vida presente como transitória e efêmera (falsa) em contraposição a uma vida ideal (verdadeira) nos altos céus deixaram a muito tempo de tomar minha atenção. Talvez alguém me acuse de incredulidade, mas não tem problema, é um belo elogio.

Desde então me tornei imprestável para “espiritualidade” cristã. Troquei a apologética pela crítica, servil arbítrio pela liberdade intelectual. Estou do lado de fora dos templos. Mas nem por isso deixo de pensar o cristianismo. Embora discorde profundamente das doutrinas e me falte fé e paciência para com os abusos em nome de Deus, ainda sou cristão, contudo sem a mínima pretensão de querer salvar o cristianismo. Apesar das minhas descrenças e desilusões ainda sou cristão, renegar minha matriz religiosa não me parece ser a solução.

Mas também é verdade que perdi a vocação para ser cavalo de montaria da religião. Não carregarei mais sobre o meu lombo clérigos gordos com os seus mitos de deveres. Correrei solto pelos campos, não puxarei mais a carroça dos deuses.

Penso que todo cuidado é pouco ao se falar do Sagrado, pois precisamos saber bem quem está por detrás da máscara de Deus – a saber, o ser humano.

Mailson Cabral.

Não seriam os teólogos necromantes?

14 nov

Profeticamente Nietzsche declarou há quase 150 anos atrás a morte de Deus. Mesmo tanto tempo depois ainda é fácil encontrar teólogos que são, praticamente, oráculos do Altíssimo, eles vêm com uma conversa de salvar, converter e redimir o homem… não confio nesses caras.

Tenho para mim que das duas uma: ou eles tomam sua crença tão cegamente que são incapazes de perceber sua própria ilusão e mentem para si mesmos (self-deception), ou então são vigaristas que trabalham a mando das instituições religiosas. E ainda há entre estes distintos senhores os que acreditam que estão fazendo ciência – alguém exagerou na dose do prozac?!

Contudo não serei generalista, há lá suas exceções. Aqui e ali tem um valente Dom Quixote a lutar contra o dragão de sete cabeças que ostenta escrito arrogantemente sobre as cabeças a blasfêmia “Rainha de todas as ciências”.

Do túmulo do Deus morto os teólogos invocam o seu Nome, tentam fazer subir o Espírito de Deus das profundezas.

É senhores, os teólogos não são tão distintos dos necromantes.

                               Mailson Cabral.

LEMBRANÇAS DO TEMPLO

12 nov

Não irei mais a igreja. Digo melhor: nunca mais irei a um templo cristão pelos mesmos motivos que um dia me fizeram acreditar ser a igreja uma solução para os problemas do mundo. Não nutro mais esperanças utópicas para com ela. Rejeito as suas doutrinas, o que para todos os efeitos é o mesmo que rejeitar a Deus. Também não acredito nessa coisa cool e light que chamam de espiritualidade.

Limito-me a passear pelos antigos templos barrocos do Recife, admiro a profunda beleza arquitetônica, realmente gosto da arte sacra.  Vejo também de esquina um pequeno grupo pentecostal reunido em sua devoção mística por Jeová…

Todavia tenho que confiar nos meus olhos, como a raposa da fábula de Esopo, e eles me mostram muito mais do que isso. Não me curvo aos que falam sobre o Reino de Deus, reinos são reinos – não confio em monarcas e seus arautos.

Para cada palavra doce e aveludada do Bom Pastor, vejo um rastro de sangue das ovelhas que o seguem. Eu que não entro nessa, passar bem.

Como raposa, afasto-me ligeiramente.

Não confio no leão velho de Esopo – nem no da tribo de Judá.

Mailson Cabral.

Realmente é possível discutir religião?

8 nov

Falar sobre religião é sempre algo espinhoso, sempre. Quem nunca se envolveu numa discussão por causa de religião que atire a primeira pedra! É bem comum comentarmos sobre o último escândalo envolvendo um televangelista e seus discursos polêmicos, ou ainda em muitas das nossas rodas de conversas brincadeiras satíricas sobre alguma prática religiosa diferente, em geral os cultos de matrizes afro-ameríndias, que fogem ao padrão formal da religião no Brasil – a saber, branca, cristã e de classe média.

Quando os debates sobre religião se acaloram, lá pelas tantas é comum ouvir alguém impor o bordão “Religião não se discute”. Para evitar o choque de opiniões divergentes e seus dissabores o melhor a se fazer é cada um aguardar sua opinião para si, mantendo dessa forma status quo de um cristianismo xenofóbico como o padrão.

Penso, particularmente, que o grande problema da religião no Brasil seja o fato dela nunca ter sido posta à mesa para discussão de fato. Fala-se muito ainda no mito do Brasil mestiço e aberto culturalmente. Mas o problema é que na mesma proporção que se deu a mestiçagem de nosso povo também se deu o preconceito religioso, o que foge a cartilha cristã ainda é visto com ares de demoníaco. Acabou-se por produzir mais defesas apologéticas sobre a fé correta e jogar as crenças desviantes para debaixo do tapete. O diálogo ecumênico se dá a níveis retóricos, mas não práticos.

Se nem ao menos conseguimos esse tipo de diálogo a nível inter-religioso que se dirá de um olhar criticamente fundamentado, olhando as religiões como criação e processos humanos? O fato é que um religioso, principalmente se for cristão, tende a olhar com muita reserva (para não dizer preconceito) a religião alheia. Como está acostumado a ver o seu ambiente simbólico religioso como centro do encontro com o sagrado, quando se depara com um ambiente de crenças distinto do seu é muito fácil atribuir-lhe um caráter negativo. “É coisa do Diabo”, bradará um pastor num culto neopentecostal.

Igualdade e criticidade quando postas a mesa tanto para o cristianismo como para as demais religiões soa quase sempre como uma aberração apocalíptica na cabeça de um crente que, impregnado pela ideia de superioridade cristã, tenta submeter tudo aos desígnios de Cristo e seu senhorio.  Talvez ele até se permita falar de outras religiões, mas a dele jamais será igual a qualquer outra.

Eis a louca obsessão do cristianismo: a posse da “verdade absoluta”. Tal ideia é a coluna central do fundamentalismo religioso cristão, inegociável, fechada, dogmática. É necessário por o dedo na ferida: o discurso fundamentalista é sustentador do ódio e da incompreensão entre as diferentes crenças, seja ela qual for. Ele está presente de forma acentuada do discurso das religiões institucionalizadas. E com quem assume ideias fechadas é impossível se estabelecer um diálogo, pois não há real espaço para isso.

Diante dessas condições cabe ao próprio indivíduo religioso a responsabilidade de formar o seu próprio conhecimento crítico a respeito da religião. Sei que não é tarefa fácil diante do quadro apresentado, porém necessária caso queiramos espaços para um diálogo inter-religioso de fato. Do contrário, a ideia de igualdade religiosa fica apenas no papel, e o velho bordão “Religião não se discute” continuará fortemente de pé.

Mailson Cabral.

A sabedoria védica e seu profundo ceticismo

6 nov

“Quem sabe com certeza? Quem poderá dizê-lo aqui?

Como nasceu, de onde veio a criação?

Os deuses são mais recentes que a formação deste mundo;

Então quem pode saber a origem do mundo?

Ninguém sabe como a criação começou;

E se foi ele ou não o responsável;

Ele que percrusta lá do alto dos céus,

Só ele sabe – ou talvez não saiba.”

Rig Veda (x: 129)[1]


[1] SAGAN, Carl. O romance da ciência. São Paulo: Francisco Alves, 1982, p.302