A interpretação dos textos sagrados

Cada dia estou mais convencido de que a interpretação de texto depende muito mais do que o leitor quer encontrar do que o que o texto e seu(s) autor(es) pretendem comunicar.

Tudo depende da hermenêutica que usamos, e quando se fala de textos sagrados como a Bíblia então, a coisa vira um ringue. De um lado ortodoxos, autoproclamados detentores da reta doutrina, do outro heterodoxos (quer dizer, hereges na boca da ortodoxia), que defendem um discurso diferente do oficial. A história do cristianismo é marcada por esses conflitos, principalmente nas primeiras comunidades cristãs, isso incluiu muitas disputas e alterações teologicamente motivadas pelo sentido “correto” dos textos que hoje compõe o Novo Testamento[1].

Não entrarei no mérito de dizer dentre os vários grupos que compunham as comunidades cristãs dos séculos II e III quem eram os mocinhos ou vilões da história – se é que posso falar nesses termos. O fato é que uma linha de interpretação prevaleceu sobre as demais e se tornou a oficial, silenciando interpretações divergentes. Desde então se tornou comum lutar para defender o discurso “oficial” da cristandade e seus ideais imperialistas. Que importavam os outros credos? Os fins justificam os meios quando o que importa é a manutenção do poder. Em nome de Deus se mata, mente e rouba, mas se é para a honra e glória do seu nome, então não é pecado.

A interpretação da Bíblia dentro da tradição cristã é essencialmente um jogo poder, não de verdades. A tentativa de busca crítica sobre a história e a composição dos textos sagrados sempre gera problemas dentro das igrejas. Talvez seja por isso que sempre se usa “A letra mata fulano” quando alguém faz perguntas que as doutrinas não respondem. Ficar calado é a melhor opção para quem não quer encontrar problemas na sua congregação.

Mailson Cabral.


[1] Para quem quiser uma leitura um pouco mais aprofundada sugiro EHERMAN, Bart. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? : quem mudou a Bíblia e por quê. São Paulo: Prestígio, 2006.

Anúncios

Três perguntas para se preparar uma boa pregação ou discurso político.

A receita é simples, talvez você até já conheça, mas não custa nada relembrar. São três perguntas que orientam toda a boa pregação ou discurso político, aliás, qualquer coisa que você queira vender para o seu público-alvo.

  1. O que queremos que eles saibam?
  2. O que queremos que eles sintam?
  3. O que queremos que eles façam?

Junte estas perguntas com uma boa dose de retórica e leve ao forno brando até dourar ligeiramente. Depois de pronto deve ser servido quente.

Mailson Cabral.

Sobre Deus e a Bíblia

Tenho que confessar, fui por um bom tempo aquele tipo de pessoa que lê a Bíblia de maneira devocional. Acreditava que Deus, através do Espírito Santo, me revelaria o significado de cada passagem, que iluminaria todo o meu entendimento a cerca das Escrituras. Acreditava no cânon divinamente inspirado, quase que psicografado. Li a bíblia toda 3 vezes nessa perspectiva.

Na tentativa de me tornar mais “espiritual” fui inventar de estudar um pouco de exegese, crítica textual, história do cristianismo, ciências da religião e filosofia. Não demorou muito tempo para eu perceber que tinha algo de errado no que cria piamente. Percebi que minha fé era a crença em um mito, tudo construção histórico-cultural, como o são também todas as crenças religiosas ao redor do mundo.  De repente a ficha caiu, já não estava mais preso à religião. Pastores, bíblia, púlpito, teologia, dogmas, igreja, nada disso me prendia mais.

Diante disso não pude manter a mesma leitura que fiz outrora da Bíblia. Os meus paradigmas mudaram, mudou-se também o tipo de leitura. Hoje só consigo me aproximar da Bíblia se for numa perspectiva histórico social, e para isso ainda tenho muito o que estudar. Isso me dá uma sensação de ter que começar tudo do zero, todavia sei que sou eu a construir o meu conhecimento agora, não mais terceiros.

Reconheço hoje que todas as certezas que tinha sobre Deus não passavam de racionalizações teológicas. Se de fato existir algo semelhante a Deus isto está além dos nossos discursos humanos e não dá legitimação alguma para nossas afirmações doutrinárias a seu respeito. Quando falamos de Deus, falamos de nós mesmos na verdade. Por isso concordo com Feuerbach:

“Como forem os pensamentos e as disposições do homem, a assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais será o valor do seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento.”

Tanto Deus como a Bíblia se tornaram obras humanas para mim, não  sinto mais temor ou tremor ao me aproximar deles. O medo não entra mais no meu repertório. O que dói é só toda essa claridade nos olhos.

“Sou homem, nada do que é humano me é estranho.” Terêncio

 Mailson Cabral.

Sobre o cristianismo

Desmontar e analisar os paradigmas cristãos para entender como eles foram formados, seus usos e justificativas e como eles atuam sobre nós é o primeiro passo para se pensar em um cristianismo não dogmático, autocrítico, maduro. Todavia não tenho esperanças que esse tipo de coisa um dia venha a acontecer dentro das igrejas cristãs, há uma preocupação muito maior em adestrar as pessoas para os fins programáticos institucionais do que levá-las a refletirem criticamente sobre suas crenças.

Devidamente domesticado deve seguir o bom crente, submisso aos seus mitos e aos sacerdotes de Deus. Com a visão fechada o crente é incapaz de considerar outros pontos de vista a respeito de sua fé. A fé “verdadeira” depende muito mais da ignorância do que qualquer outra coisa, não é a toa que a dúvida é creditada como pecado. Com a dúvida começa a reflexão crítica, a contestação de uma ordem já estabelecida.

Negar as ordenanças divinas é um sacrilégio. É comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, ou em outras palavras, desobedecer ao sacerdote, aquele que detém a palavra de Deus, quer dizer, se esconde atrás do discurso de Deus.

Mailson Cabral

Uma breve teoria do medo

Por que sentimos medo? Penso que não seja uma questão só metafísica, mas também biológica. O que é metafísico é a instrumentalização do medo no discurso e nas ações humanas. Podemos chamar o medo com vários nomes, criar as diversas tipologias, mas o medo, o senso de medo, transcende nossas racionalizações. Talvez seja ele a câmara escura da qual nunca consigamos escapar. É a nossa herança biocultural das mais importantes que se manifesta diante do incerto, do desconhecido, do que nos inspira temor.

Nossa existência é uma luta que travamos na tentativa de afastar o que nos causa medo. A lei, a religião, a educação e a família nos doutrinam a ter medo de ter medo do medo – e entre os homens quem domina é quem sabe controlar o medo dos outros, seja promovendo paz ou terror. Penso que não é exagero dizer que o medo seja o astro que gravitamos ao redor. Por mais que tentemos bani-lo com todo o rigor e objetividade da razão ele ainda continuará lá, embaixo da cama, nos esperando dormir…

O medo, a nível antropológico, está inserido na relação indivíduo/sociedade/espécie, permeando toda a nossa existência irremediavelmente. O medo em toda a sua animalidade nos protege do perigo, contudo também nos leva a circunstâncias irracionais. Em toda a sua racionalidade nos educa, mas também no faz estúpidos. Os mitos e ritos dos nossos ancestrais são, de certa maneira, tentativas de driblar o medo que uma criatura pequena e frágil sente diante de um mundo selvagem e inconstante. Nossa busca desenfreada por ordem e por sentido nas coisas tem um ar de medo condensado.

Todavia o homo sapiens cresceu. Usa calças, constrói casas, dirige automóveis! Tornou-se sofisticado. Maduro o suficiente para pensar que a questão do medo é algo que se resolve com remédios, livros de autoajuda e terapia.

Mailson Cabral

Sobre a leitura dos textos bíblicos

Certa vez li que Albert Einstein percebeu que muitas histórias da bíblia não eram verdadeiras aos 12 anos. Eu, coitado, só percebi isto aos 21. Mas pelo que vejo ainda tem muitos pastores e teólogos que morrem de pé junto jurando o contrário. Na verdade até sabem, mas isso não é coisa que se fale em alto e bom som, vai que alguma ovelha escuta…

Todavia sejamos francos, o bom evangélico é castrado do seu senso crítico para com suas crenças. É incapaz de fazer outra coisa além de repetir doutrinas e dogmas. Faz uma leitura viciada da bíblia, sempre fechando os olhos para as incoerências que encontra, preenche tudo com defesas apologéticas e racionalizações teológicas que ele mesmo faz ou escuta.

Isto sem falar que a compreensão dos textos bíblicos é sempre alegórica, quem dá o sentido é a doutrina, não importa o que o texto diga. E não adianta nem discutir com ele. Quem já está certo de suas verdades não escuta opiniões diferentes, pois essas, necessariamente, estão erradas.

Com a mente necrosada por seus dogmas segue o bom evangélico, comportamento padrão, ovelha boa para o tosquio, carne fresca para o consumo…

Desculpe-me, mas não creio que algum bom pastor virá salvar as ovelhinhas.

Mailson Cabral

Pobre deus

Pobre deus. Criou um mundo tão belo para que os homens pelo seu santo nome o destruíssem.

Pobre deus. Não tens culpa que na tua onisciência que criarias seres tão perversos.

Que na tua onipotência sejas incapaz de salvar aquela criança do estuprador mais vil.

Que na tua onipresença sejas incapaz de estar nas câmaras de tortura.

Pobre deus, deus pobre. Em uma tarde cinzenta te encontrei morto, no cais de Santa Rita.

Pobre deus. Não sei qual a relação entre ti e o teu nome, mas sei bem qual a relação entre os homens e teu nome, fizeram de ti um nome terrível, temido e idolatrado.

Pobre deus. Choro por ti, choro contra ti e choro contigo, pois bem sei que tu não és deus.

Mailson Cabral